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29.6.22

Sobre Fotografia - Susan Sontag [Trechos] [leitura 37]

Na Caverna de Platão

[...] quanto mais eu pensava sobre o que são as fotos, mais complexas e sugestivas elas se tornavam.


Em primeiro lugar, existem à nossa volta muito mais imagens que solicitam nossa atenção. O inventário teve início em 1839, e, desde então, praticamente tudo foi fotografado, ou pelo menos assim parece. Essa insaciabilidade do olho que fotografa altera as condições do confinamento na caverna: o nosso mundo. Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar. Constituem uma gramática e, mais importante ainda, uma ética do ver. Por fim, o resultado mais extraordinário da atividade fotográfica é nos dar a sensação de que podemos reter o mundo inteiro em nossa cabeça — como uma antologia de imagens.
Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. Significa pôr a si mesmo em determinada relação com o mundo, semelhante ao conhecimento — e, portanto, ao poder
Fotos fornecem um testemunho. Algo de que ouvimos falar mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram uma foto. Numa das versões da sua utilidade, o registro da câmera incrimina.

18.5.21

Todos os meu humores - Dia Nobre



Em Todos os meus humores, Dia Nobre fez eu me reconectar com passagens internas em mim, a poesia se transforma no material utilizado por exploradores da alma. 

Ao lê-la, pecorri desertos, alpes, zonas abissais e florestas. Em cada paisagem, ou em cada um de seus humores, reconheci fragmentos meus e me senti abraçada, menos sozinha e mais viva. 

Às mulheres, os adjetivos desequilibrada, histérica, raivosa, frígida são constantes ao longo da História e da Literatura. E como historiadora, Dia Nobre conseguiu unir em sua poesia a memória de nossas antepessadas queimadas, julgadas, apedrejadas e levantar uma fogueira não para morrermos, mas para renascermos, com o fogo de nosso sexo. 

Em Todos os meus humores não escondemos nossas camadas, ossos, pele, aqui é tudo exposto, goste ou não. E quando Dia afirma que "é anônima", ela diz que é todas nós. 

Os poemas também falam muito sobre o amor, o amor a outras mulheres, envoltos em desejo e decepções com intensidade e leveza ao mesmo tempo. 

No livro, ela mistura poesia e prosa poética, alguns poemas são mais breves e outros mais longos. Há na maioria deles um tom bem cotidiano e íntimo que não nega a influência de Ana Cristina Cesar e eu amo! 

Ao terminar o livro senti que não escrevo, enlouqueço ou leio sozinha, porque "não me importam as pedras / as transcendo na ponta de minha caneta". 



31.3.21

[Resenha] Ninguém vai lembrar de mim - Gabriela Soutello

É um livro difícil de pegar nos braços, são tantos sentimentos, imagens e sensações que me perfuram que gostaria de conseguir reter todas as palavras aqui na retina, para nunca esquecer.


Mas sei que esquecerei, essa é a tristeza da leitura. Esquecemos algum dia todas as frases que tanto nos maravilharam.

Ficamos apenas com o que cola no corpo. Por isso ler, não é algo só intelectual, é sensorial. E o livro de Gabriela Soutello mexe mesmo com nossos sentidos.

O livro é composto por prosas poéticas. Não existe uma narrativa linear, também não são contos da maneira convencional que entendemos o que é um conto.

Aqui temos fragmentos do percurso investigativo de uma mulher com sua solidão, amores, sexualidade, divagações sobre o futuro e memórias. Não em busca de nada específico, apenas deixando-se escorrer em vermelho.

Cada texto, mesmo que não totalmente compreensível em uma primeira lida, parecia narrar uma parte minha. Isso porque Gabriela consegue revirar por dentro detalhes íntimos das relações humanas.

Não conheço Gabriela, não sei quem ela é, o que é verdade ou não e não importa. O que temos é um material de entrega que nos pede mutuamente permissão para desbravarmos-nos.

11.3.21

A mulher mais amada do mundo - Vanessa Passos

Alguns livros nos marcam pelos longos meses dedicados a eles como uma travessia persistente. 

Outros pela velocidade com a qual atingem nosso íntimo como uma farpa, um pequeno objeto perfurando nosso corpo e latejando por alguns dias. 

Nesse segundo grupo está o livro A mulher mais amada do mundode Vanessa Passos. 

São 13 contos que possuem no máxino duas páginas cada, todos com mulheres como protagonistas, tazendo histórias sobre solidão, luto, descobertas interiores.

O grande foco são as personagens com suas contradições e veredas, que me fizeram refletir sobre as mulheres que habitam em mim - pois ao longo da leitura me identifiquei com várias. 

Em nossa sociedade, a união entre mulheres foi destruída como projeto político, como encontramos no livro Calibã e a Bruxa de Silvia Federici. Sentimentos nocivos de competitividade e rebaixamento entre mulheres são incentivados na mídia e nas representações artísticas. 

Na contramão de tudo isso, o livro de Vanessa Passos surge desse fogo usado para queimar nossas antepassadas, cada história pega na sua mão e te convida a também contar as suas. São contos-gritos de liberdade contra esse apagamento.

Em um dos contos, quando a neta de Alice decide contar a história da avó, não é só sobre ela que a personagem se refere, mas da vida de milhares de mulheres que não foram ouvidas, que não acham que suas vidas são banais demais para a literatura, e aqui, eu sinto que cada história que temos dentro de nós importa, muito.

Os contos me fazem observar também as mulheres ao meu lado e as que já passaram na minha vida; me faz amar mulheres de modo geral, como um coletivo, me faz querer que cada uma se sinta: a mais amada do mundo. 


10.3.21

Todos os nós, Maria Luiza Maia



Todos os nós é o segundo livro da escritora baiana Maria Luiza Maia. O título, de início, me chamou atenção pela abertura de dualidade em que remete a nós (angústias) internos, as "falas entupidas" como diz Ana Crisitina Cesar, ou "nós" como uma multidão contida em si. E sem chegar a nenhuma conclusão, sinto ambos.

Li a poesia de Maria Luiza como uma conversa infinita no espelho, como se eu ficasse tentando entender o que é meu corpo no mundo.

Aliás, essa investigação do corpo é um tema transversal durante o passeio nessa leitura.

Ao longo do livro há uma sequência de poemas intitulados "Para Clara", que não são seguidos um do outro, em que Maria constrói a imagem marcante de um corpo que tenta se costurar.


Achei essa sequência o ponto alto do livro, principalmente por serem saltados, e me deu a sensação de atravessar vários sentimentos, mas sempre voltar para me perguntar como me costurar quando rasgada. Ao que Maria avisa: "não espere que alguém os emende".

Os poemas, assim, vasculham a estrutura desse corpo rompido, espatifado e também dialogam com o próprio fazer poético com ironia como quando conclui que "os poetas são mentirosos" e rebate possíveis críticas sobre escrever um poema que não tem rimas e palavras difíceis.

Todos nós é uma leitura que me faz enfrentar meus buracos, minha solidão, com poemas que ficam no ar durante um tempo "para que a pele se acostume com os pontos".

19.11.20

Narrativa Fisgante: Fique Comigo (Ayòbámi Adébáyò)

Fique comigo foi a leitura que mais me prendeu no ano, fazia tempo que eu não me sentia tão dentro de uma história ao ponto de realmente sofrer com personagens fictícios e querer bater em outros se eu encontrasse na rua. Por um lado, senti um alívio ao pensar ser tudo ficção, porque a vida Yéjide é plot twist atrás de plot twist.

Esse é o livro de estréia da nigeriana Ayòbámi Adébáyò e conta a história de Yéjide e Akin, um casal que dediciu ser monôgamico dentro de uma sociedade poligâmica e que não tiveram nenhum filho nos 3 anos de casado dentro de uma cultura que centraliza a função da mulher na maternidade. O fato de Yéjide não ter um filho praticamente anula a utilidade dela no casamento o que faz com que Akin o faça case com uma segunda esposa, mesmo tendo decidido pela monogamia com Yéjide. Essa nova situação chega a Yéjide inesperadamente o que desencadeia uma série de reviravoltas. 


Além disso, é de uma experiência riquíssima termos contato com literaturas africanas, que nos mostram outras formas de cultura ao mesmo tempo que temos uma geraçõa de escritores fenomenais que relacionam tradição e modernidade, com críticas socio-políticas em suas narrativas. 

Já fiz uma resenha no canal sobre o livro, mas vim só aqui deixar minha recomendação para ir lá conferir o vídeo. 




Se você estiver com alguma ressaca literária ou sem conseguir se prender a nenhum livro, esse com certeza não vai fazer você querer parar de ler. 


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16.11.20

As cavernas que habitam mulheres ferinas: sobre Um Buraco com meu nome, de Jarid Arraes




Tem livros que sinto que vão me cortar fundo, então eu preparo a carne por um tempo, fico ali observando de longe por alguns meses ou anos até, apesar de saber que nenhuma preparação suaviza o contato com poemas que tomo nas mãos como vulcões de coisas que eu mesma guardava e não sabia. 

Assim que vemos Um Buraco com Meu nome de longe, o livro nos encara como uma fera, a capa é preta ao fundo, com rabiscos cinzas preenchendo-a quase toda, e o título em vermelho sangue e letras grossas, assim: UM BURACO COM MEU NOME.

Esse é o primeiro livro em poesia da escritora cearense Jarid Arraes, um nome já reconhecido na literatura contemporânea brasileira por seus contos e cordéis. É com ele que Jarid, funda o selo da editora Jandaíra, Ferina, dedicado à publicação de mulheres. 

Um buraco como uma caverna onde habitam mulheres ferinas, foi essa a imagem que me veio ao engolir o livro, dedicado "aos que nem sempre encontram matilha". Dividido em quatro partes: Selvageria; fera; corpo aberto e caverna a obra também contém ilustrações da própria autora em desenhos que lembram pinturas rupestres. Me trouxe a sensação também de uma mulher presa, desenhando e escrevendo versos sobre sua solidão. 

A primeira e segunda parte vão trazer poemas de tom insurgente, tecendo sobre o corpo da mulher, a cidade, solidão, a loucura e as relações entre gêneros. 

A terceira começa com um poema inicialmente convidativo: "venha desenhar o mapa do meu corpo aberto", mas logo mostra que para conhecer o "meu" corpo, é precis admirar as vísceras também. Um corpo em que "paredes desabam" e se busca as linhas da loucura. Os versos vão investigar cada fio de cabelo, peso e tamanho desse corpo-fera-aberto, também passando por questões de sua identidade como mulher negra.

O livro termina com o poema Chama. trazendo o fogo como um ímpeto de regeneração. Uma chama quem vem pelo contato por meio da escrita, da palavra - talvez.

Às selvagens, às loucas, às não amáveis, Um Buraco com meu Nome é uma pergunta, que nos torna selvagens são as interrogações que nunca conseguiram, por mais de séculos que tentaram, nos calar. 

Os poemas-canções de Prelúdio in Blue, de Rafaella Britto




Sendo esse um livro de poemas, talvez eu não pudesse imaginar personagens, cheiros, cenários e sons, elementos fundamentais das narrativas. Prelúdio in Blue, por outro lado, rompe essa dicotomia e explode de suas páginas uma diversidade de personas, aromas, e ambientações, todos envoltos por uma névoa em azul, azul que não é frio, mas morno, como um abrigo. 

O livro de estréia da paulistana Rafaella Britto, publicado em 2020 pela Editora Penalux, é a uma das mais belas homenagens que já vi ao casamento de séculos da música com a poesia, nesse caso, mais precisamente à música de raízes negras. Os versos de Rafaella irrompem em ritmo de samba, blues & jazz, saindo rodopiante das mãoas da poeta, prontos para invadirem à noite. 

Because the night belongs to lovers, diz a música de Patti Smith, e é assim que sinto também os poemas de Prelúdio in Blue, seres pertencentes à noite, e nascidos de um profundo amor. 

"Blue, songs are like tattoo" são os primeiros versos da famosa música Blue da cantora Joni Mitchel, que está na epígrafe do livro. É assim que Rafaella leva essa música e tantas outras que a inspiraram na criação de seus poemas como tatuagem, como parte de sua pele. 

Inclusive, ela afirma em uma entrevista que o livro é uma busca por sua própria identidade como mulher negra, e nesse movimento de elevar grandes artistas negros da música, a escritora constrói em seus poemas-canções um percurso de memória e descoberta. 

Além da música, o cinema é também uma arte bastante referenciada no livro. Rafaella é cofundadora e editora da revista digital Cine Suffragette, dedicada às mulheres e minorias no cinema e constrói cenas que revisitam atmosferas cinematográficas como em Amado Mío: 

"Ama-me para sempre

na ilusão de um velho cinema"

Prelúdio in Blue é um mosaíco poético que chega para o leitor como a descoberta de uma caixa de fotografias antigas, revelando a contrução de uma vida que emana Arte, uma leitura inspiradora que nos faz pensar quanto de nós é constitúido por belos momentos em que alguém decidiu criar algo e colocar no mundo


10.10.20

Chamada: leitura coletiva da obra de Sylvia Plath

Hoje é dia 10 de outubro, marcado como Dia Mundial da Saúde Mental.  Acabei por relacionar essa data com a leitura coletiva da obra de Sylvia Plath. Pra mim, Sylvia é muito mais do que uma autora que teve uma morte marcante, mas sim, uma mulher que viveu com intensidade, paixão e poesia de forma que inspira gerações e escritores até hoje. Lembrei dessa data não pela morte de Sylvia, mas por ela ter tido a força e capacidade de transformar a imensidão de pensamentos e sentimentos que ela carregou em seu corpo e alma em arte.

É com o sentimento pulsante do que a obra de Sylvia Plath tatuou literalmente em mim (tenho tatutado um trecho de A Redoma de Vidro) que tive o desejo de propor essa leitura coletiva. Quero compartilhar com vocês um percurso pela poesia vibrante de Sylvia, uma mulher que conseguiu escrever com tamanha consciência as angústias, dores e prisões do seu gênero em uma poesia de energia extraordinária.

Das 7 pessoas inscritas na leitura, todas são mulheres, isso diz muito da falta de interesse dos homens pela escrita das mulheres. Livros escritos por homens são considerados clássicos que tratam de temas universais, se eu tivesse propondo uma leitura coletiva de algum homem clássico teriam alguns outros homens interessados.

Então, a leitura coletiva também vem para questionar esse paradigma. Mulheres escrevendo sobre seus sentimentos SÃO universais, são os sentimentos da humanidade também. Mulheres leem mais mulheres porque como seres humanos, começamos a nos questionar que retrato estamos encontrando na literatura feita por homens.

E homens precisam ler mais mulheres para desfazerem seus estereótipos e a maneira como desenvolvem as relações.

Estou muito empolgada com o percurso que vamos fazer! E ainda espero que mais pessoas venha se juntar a essa leitura para compartilharmos nossas percepções e desfazer a ideia da leitura como um ato solitário. Vamos ler juntos e juntas Sylvia Plath?

"Como saber quem eu sou? Como permitir que meu senso inato de sentido possa fluir e me vincular com outras pessoas e com o mundo? Por que essa sensação de horror toma conta de mim?" (Sylvia Plath, Diários)

 


24.6.20

Ela Disse - Jodi Kantor e Megan Twohey


"Ela Disse - os bastidores da reportagem que impulsionou o #metoo" vai relatar todo o processo das jornalistas Jodi e Megan para publicarem uma matéria expondo décadas de assédio sexual e a compra do silêncio das vítimas por meio de acordos de confidencialidade cometidos pelo produtor de cinema Harvey Weinstein. 

Ao relatar todo o processo investigativo, o livro levanta diversas questões envolvendo a violência sexual contra mulheres trazendo como plano de fundo a indústria cinematográfica de Hollywood, mas também abrindo espaço para pensarmos na total falta de segurança que ainda há para mulheres nos diversos ambientes de trabalho. 

Como um fio de um novelo, a história começa por Harvey e seus acordos de silenciamento, mas desenrola um emaranhado de relatos da real situação do assédio sexual hoje. Engasgadas com a sensação de que nada mudou durante décadas de luta feminista, percebemos o complô entre criminosos sexuais e um sistema judiciário que não entende o que uma vítima de violência sexual passa, com base em leis que não nos protegem. 

Também traz reflexões sobre a real eficácia do engajamento virtual e o que pode ser de fato mudado quando há um movimento como o #metoo. Faço algumas críticas ao tom jornalístico meio distanciado e por em nenhum momento usarem a palavra machismo e patriarcado como a real origem de toda essa violência. 

O livro acaba deixando a desejar ao não propôr uma crítica que faça os leitores compreenderem que não se trata de um "comportamento predatório" que surge do nada, mas que é amparado pelo machismo e sem a destruição do pensamento patriarcal não estaremos livres nunca e por isso precisamos do feminismo, mas promove um debate sobre o quanto precisamos acreditar numas nas outras e da força dessa união para quebramos essas correntes de silêncio.

7.6.20

Reflexos num Olho Dourado - Carson Mccullers



Carson é uma escritora que infelizmente ainda tem pouca visibilidade no Brasil apesar de sua qualidade literária, contemporânea de Faulkner, Capote e Tenesse Williams, a estadunidense tem um estilo original e foi percursora em trazer temas polêmicos para a literatura. 

Neste curto romance reconhecemos o toque característico de Carson: personagens que destoam de uma normalidade social, incomunicáveis e uma tensão silenciosa entre eles prestes a quebrar a falsa calmaria de suas vidas.

Em Reflexos num Olho Dourado, temos como cenário principal um batalhão do exército e a casa de um dos capitães desse quartel, o oficial Penderteon, um homem gay reprimido, é casado com Leonora, uma mulher muio atraente, mas descrita por Carson como tendo um algum "atraso mental". Logo de cara, Carson revela que aconteceu um crime envolvendo os personagens principais, sem obviamente dizer por quem, quais as vítimas ou como se desenrolou isso. 

Aos poucos vamos conhecendo as figuras e de que maneira elas vão se relacionando e revelando seus segredos.  Todos os personagens sustentam no limite de seus nervos uma vida aparentemente comum, cada um reprimindo desejos sexuais. Essa repressão é o fio condutor da narrativa e o que liga essas estranhas criaturas, que como lemos na orelha desta edição, parecem metade humanos, metade animais, tomando atitudes extremas e violentas, desprovidos de racionalidade, sufocados pela normatividade imposta. 

Eu adoro o estilo inconfundível de Carson narrar as coisas, ela consegue ser poética e ao mesmo tempo jogar na sua cara acontecimentos chocantes sem a menor preparação, te deixando meio desnorteado: ela faz um corte e o sangue só é espirrado na sua cara sem que você possa se defender. 

Bom salientar que a história se passa num EUA sulista, nos anos 30 e os personagens são bem racistas. Mas por outras obras de Carson em que ela trouxe personagens negros ao centro da narrativa, eu vejo que nesse se trata da caracterização dos personagens, inclusive como crítica a essa sociedade com resquícios escravocratas, pois ela zomba desses personagens, ao mesmo tempo que disseca os podres de uma elite neurótica e limitada por preconceitos explodindo tudo isso em violência e autodestruição. 

24.5.20

Linha M - Patti Smith

Hoje, no dia do café, não tenho como não lembrar de Patti Smith e e a relação ritualística que ela criou com os cafés (espaços e bebida). 



Linha M é composto por memórias de diversas épocas da vida da autora em que ela traz um olhar único, íntimo e mágico sobre muitas questões as quais as experiências de vida que ela teve a levaram a refletir, é um livro de alguém eternamente aberta ao mundo para aprender, alguém que olha o mundo sempre com olhos curiosos e vivos. Um livro que te faz querer ter paixão pela vida mesmo nos momentos mais tristes. 

O que isso tudo tem a ver com café? No primeiro capítulo, Patti nos fala sobre o Café 'Ino, lugar em que ela vai todas as manhã, escolhe a mesma mesa para ler e escrever. Além disso, a bebida e o espaço dos cafés estão presentes em muitos outros momentos, buscar um café é um ritual que Patti tem em todo lugar que vai. O café é o terreno de criação e a bebida parece seu combustível. 

"Minha mesa e a cadeira do Café 'Ino. Meu portal para onde."

Ler Linha M é se sentir tocado pela imensa sensibilidade que Patti tem acerca da vida e da arte. Além de artista, ela é uma apaixonada por arte, ao longo do livro ela cita diversos artistas que a marcaram de alguma forma, tudo de forma muito singela e sem nenhuma soberba intelectual. Isso mostra pra mim a humildade que ela tem ao compartilhar suas referências e o quanto aprende e cresce com outros artistas.

"Todos os escritores são vagabundos - espero ser considerada uma de vocês um dia."

Ir ao cemitério desses artistas é outro dos rituais que ela cultiva, como que para celebrar a vida que tiveram e o que puderem nos deixar. Patti os faz ainda vivos. 

"Os mortos falam, nós é que esquecemos de ouví-los"

9.5.20

Mulheres na Luta - Marta Breen e Jenny Jordahl (parte 1)


Mulheres na Luta é uma HQ que eu recomendaria para todo mundo que quiser um primeiro contato com a história da luta feminista no contexto europeu e estadunidense e entender um pouco das chamadas "ondas do feminismo", pois traz todo esse conteúdo de forma bastante divertida e acessível. 

Mas hoje faço algumas considerações. De início a HQ coloca as mulheres brancas no mesmo patamar de escravizados e crianças, ela diz que esses três grupos não tinham os mesmos direitos que os homens.

Hoje observo isso com mais atenção, pois, pela visão da autora, as mulheres negras escravizadas estariam na mesma posição de mulheres brancas: sem direito a propriedade em seu nome, impossibilitadas de ganhar seu próprio dinheiro e de votar. 

Porém, acho que ter colocado ambas no mesmo patamar de desigualdade apaga o processo de escravidão, em que mulheres brancas, mesmo com menos direitos que homens (brancos), eram vistas socialmente acima dos escravizados, inclusive usando esse degrau um pouco superior para junto ao seus maridos perpetuarem a escravidão. 

Claro que existiu no meio disso muitas mulheres brancas abolicionistas e que se recusaram a compactuar com o processo da escravatura. Mas é importante entender que infelizmente não partimos do mesmo local, pois mulheres e crianças brancas ainda eram vistas numa sociedade escravocrata como superiores a pessoas negras. Enquanto ela diz que "mulheres" não podiam fazer faculdade, as mulheres negras estavam sonhando em acabar com a condição de serem propriedade tanto das mulheres brancas como dos homens brancos. 

Falando especificadamente da HQ, quando começamos a ler sobre "a história da opressão das mulheres", é apontado questões como o casamento obrigatório, o voto, a falta de educação formal, etc. E o texto é acompanhado de ilustrações de mulheres brancas, claro, pois essas questões eram relacionadas a nós, já que para mulheres negras as coisas eram um poucos diferentes, e piores.

Mesmo impossibilitadas de irem para a faculdade, muitas mulheres brancas podiam aprender a ler e escrever, em casa, enquanto para mulheres negras na mesma época isso era totalmente proibido.

E para se casarem, mulheres negras até tinha a "liberdade" de escolher seus parceiros, mas precisavam pedir permissão aos "senhores e senhoras" e muitas vezes isso era negado. Era na verdade uma falsa liberdade, pois a mulher escravizada "pertencia" ao "senhor de escravos", mesmo que fosse "casada" isso não ia impedir os estupros que ocorriam por parte dos homens brancos.  Sem contar as situações em que tinham seus filhos tirados ao serem vendidos para outras fazendas. 

Todas essas questões poderiam ter sido abordadas na HQ se a ideia era falar como era o retrato de opressão da mulher no século XIX, mas parece haver uma tendência a começar falando como a sociedade é/era com as mulheres brancas. 

Isso significa que é errado falar da condição de mulheres brancas? Que elas não sofriam? Que não era aprisionadas? Que não eram livres também, em certo sentido? Não, não e não. É importante que entendamos as condições de vida das mulheres ao longo dos anos para refletirmos sobre a origem da nossa opressão e valorizarmos as conquistas de hoje. É importante falar como TODAS as mulheres sofreram e sofrem opressões diferentes ao longo do tempo. Mas também observando o uso do termo "mulheres" como universal, principalmente no contexto de raça. 

29.4.20

[Resenha] Harry Potter e o Cálice de Fogo - J.K. Rowlling

Não lembro minhas sensações quando li essa série a primeira vez, há mais de 10 anos. Mas hoje ela ainda se revela uma bela obra, que com certeza eu indicaria para qualquer um ler em qualquer tempo. 

Sinceramente, a emoção que ele traz é atemporal.

No começo desse 4º eu fiquei bem impaciente e achei um pouco chato, não tinha sentido isso nos outros 3, mas nesse, os diálogos eram arrastados, as coisas demoravam a "acontecer" e muitas cenas eram descritivas demais e pareciam não acrescentar nada à história.

Mas assim que o cenário mudou para Hogwarts e aconteceu o que você sabe que acontece com Harry rsrs ai eu não largava mais de ler <3

Nos capítulos finais do livro temos uma mudança de atmosfera diferente dos outros livros, as coisas ficam mais densas e tristes, não há um fechamento do tipo "ufa, passou mais uma aventura" e sim "eita pau, o que vai acontecer agora?", ousaria dizer até mais adultas mesmo. Ler esse livro quando adolescente é lidar com sentimentos que muitas vezes não sabemos lidar: a morte, a ausência de pessoas queridas, a injustiça, a crueldade, entre muitas coisas.


Em O Cálice de Fogo, J.K. consegue misturar diversos sentimentos que passam por nós aos 14 anos, bem como temas mais sérios, e inclusive, semelhantes ao que estamos passando, como o descaso das autoridades diante a um grande perigo.


Não estou esticando a baladeira, mas a reação de Fudge no final do livro é absolutamente revoltante, e por um momento me lembrou a estupidez de Bolsonaro. Fudge quer negar que falhou, que as pessoas estão em perigo, apegado e cego de amor ao poder, como Dumbledore diz, não se importa que inocentes morreram e vão morrer devido à sua cegueira. 


Mas ÓBVIO, com as devidas proporções, não estamos num mundo mágico, não temos Harry Potter, nem Dumbledore, nem as coisas irão ser explicadas com uma profecia, ou tão claramente como nos livros. Tudo isso é fantasia, ficção. e nós, estamos na realidade né? Mas, termino esse livro com a certeza de que J.K. não teria criado uma série tão mágica se não fosse uma observadora atenta do mundo real.

24.4.20

[Resenha] Morango e Chocolate - Aurélia Aurita


Morango e Chocolate é em poucas palavras uma HQ safada e fofinha :D
Narra as primeiras semanas da relação de Fréderic e Aurélia. .
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Aurélia vai até o Japão para uma conferência de quadrinhos e também para encontrar Fréderic, que havia conhecido na França. A hq se diferencia por retratar de forma divertida e direta as descobertas sexuais que ocorrem entre eles ao mesmo tempo que vão também consolidando a relação. .
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Apesar das imagens eróticas que Aurélia desenha sem tabu, o traço meio arredondado e as expressões lembram um pouco feições de anime e por isso que eu disse que é uma safadeza fofinha. Muito legal é como Aurélia transita entre situações sexuais para coisas engraçadas e reais que raras vezes vemos na lliteratura, como o sexo quando se está menstruada e fetiches sexuais de querer se ver no espelho entre outros que acharíamos "nojento", mas o jeito que ela coloca nos faz pensar como tudo isso deveria ser falado de forma mais natural entre adultos. .
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Aurélia também traz a perceção de uma mulher, algo inovador porque como sabemos, raramente lemos literatura/quadrinho erótico do ponto de vista feminino, fala de todos os desejos, fetiches e inseguranças que poucas vezes são ditos. Acho que seria um ótimo presente pra alguns homens que nunca perguntam ou parecem se interessar no que desejam suas companheiras. É interessante observar que não se trata apenas de abordar a sexualidade feminina, mas A SEXUALIDADE, pois nós também fazemos parte do estudo da sexualidade, falar da sexualidade da mulher não é um assunto só para mulheres. A arte erótica feita por mulheres é ignorada por homens ou objetificada por eles, nunca vista como parte do estudo erótico. O corpo nu da mulher é a imagem mais exposta na nossa sociedade, essa hq não se trata disso, mas sim de uma mulher observando a si e a seu parceiro, desenhando seus desejos, não a serviço da excitação de um homem, mas como expressão de si. .
#hq #auréliaaurita #readwomen #leiamulheres

26.3.20

[Comentário] Condolências - Virginia Woolf (Conto)


Virginia Woolf, como uma grande escritora que é, é uma observadora integral da vida humana, sua obra parece se deter a ser profundamente sobre pessoas em situações mais cotidianas possíveis, imaginadas ou reias, jamais saberemos de certeza. Mas para um romancista esses dois mundos se fundem. Em Condolência, a narradora recebe a notícia que o marido de uma amiga faleceu, a partir daí começa a pensar na última vez que esteve com Hammond, o falecido, e vai imaginando mentalmente toda a vida de Celia, sua amiga, diz "Há um momento que não consigo imaginar: o momento da vida dos outros que deixamos sempre de lado, o momento do qual procede tudo que nós  sabemos deles". Todo o conto parece ser esse esforço imaginativo de colocar sua mente para visualizar a vida de alguém e refletir sobre a presença da morte. A morte é um tema recorrente na obra de Virginia, principalmente por ela ter passado por muitas perdas bastante dolorosas em toda sua vida. O final do conto é ambíguo e dá a entender que talvez ela tenha se enganado sobre tudo que estava pensando sobre a morte de Hammond. O que acho mais brilhante é a capacidade que Virginia teve de transformar a dor de um luto em narrativas tão belas e simbólicas.
"Meus amigos passam sombreados a cruzar o horizonte, todos eles desejando tudo de bom, ternamente se livrando de mim e saltando da borda do mundo para o navio que espera para os levar no temporal, ou à serenidade. Meu olhar não consegue acompanhá-los. Mas eles, um após outro, com beijos de despedida e risos mais doces do que antes, vão passando além de mim para zarpar para sempre, agrupam-se e, ordem à beira d'água como se essa sempre fosse enquanto vivíamos, a orientação recebida"

11.3.20

[Resenha] Mulher Mat(r)iz - Miriam Alves




MULHER MAT(R)IZ reúne diversos contos de Miriam Alves escritos ao longo de 23 anos. Alguns já haviam sido publicados na coletânea Cadernos Negros e muitos foram traduzidos para outras línguas. Este foi meu primeiro contato com a escritora e me encantei em diversas maneiras. O próprio título do livro já instiga ao propor o jogo de palavras entre Matiz e Matriz, lemos a mulher com seus diversos matizes e a mulher como origem, matriz. O desejo e o erótico habitam a prosa de maneira poética e marcante, tendo como foco a mulher afro-brasileira. "Abajur" o primeiro conto oscila entre passado e presente e tem um desfecho surpresa. "A cega e Negra" fala de uma amizade inusitada entre mulheres, cada uma excluída da sociedade de alguma maneira, encontrando força nessa união, revela também o racismo forte da nossa sociedade, como em vários outros contos "O mundo girava para todo mundo; para ela, travava"

"Alice está morta" narra um feminicídio da perspectiva do assassino, o mais pesado de ler.  Algo muito interessante é quando a autora desloca a ideia de que personagens negros terão que ser pobres. Existe a denúncia social, mas Miriam vai além e desconstrói esse imaginário em que a maioria das pessoas que retratam personagens negros escolhem: de que colocar uma pessoa negra como foco principal tem que ser como criminoso ou empregada doméstica para poder revelar as dores do dia a dia. 

As personagens de Miriam são bem sucedidas, moram em apartamentos, compram calcinha nova, viajam de avião e são lindas, sem serem sexualmente objetificadas. "Os olhos verdes de esmeralda", outro muito pesado, denúncia o racismo, machismo e lesbofobia juntos, interseccionalizando as opressões. Em "O retorno de Tatiana" a ancestralidade e os poderes dos orixás são elevados como resgate de si de autoconhecimento da personagem, é belíssimo. "Um só gole" é um monólogo interior do desespero, uma personagem quer morrer ao mesmo tempo em que busca se agarrar a algum sentido pela vida. 

Miriam conta suas histórias por diversos pontos de vista, os contos trouxeram para mim temáticas inovadoras na literatura brasileira, terminei o livro com a alegria de ter conhecido mais uma escritora maravilhosa e de ter uma preciosidade da nossa literatura comigo.



17.12.19

Só as mulheres Sangram - Lia Vieira



Só as mulheres Sangram foi publicado em 2011 e reúne 10 contos que giram em torno do cotidiano da população negra brasileira em diversos contextos. O livro surge como urgência de existir, denunciar e rexistir. Lia Vieira dedica sua obra a "celebrar a mulher que dói a dor de ser", "para aquelas que proclamarão, a cada dia, o fim da exploração e da opressão e se moverão sobreviventes em direção à liberdade". 

A escrita de Lia se apresenta como prosa poética, alguns contos nem sempre seguem uma forma mais tradicional do gênero. As personagens são heróis dos morros, das vielas e as vítimas da violência policial, mas também são homenageados antepassados, como no conto Rosa da Farinha. "Operação Candelária" é um conto escrito como ficção científica, mas que faz referência à chacina da Candelária, um dos mais fortes. Para além das denúncias sociais, a importância do livro se dá pela representatividade de protagonistas negros e negras na ficção brasileira, há por exemplo um conto sobre um romance breve entre dois escritores negros num evento literário em Havana, num mundo em que todas as capas dos romances de Nicholas Sparks são com pessoas brancas, falar do amor entre pretos importa.  

Numa sociedade em que mais da metade da população é negra, mas não são os escritores negros os mais lidos, como podemos falar em conhecer literatura brasileira se o que é mais lido não representa essa parcela? 

Numa matéria do El País, a pesquisadora e professora Regina Dalcastagnè mostra dados sobre o assunto e afirma: "Talvez eles não sejam editados porque são sempre encarados como uma literatura de nicho. Por que a literatura de um homem branco, de classe média, é considerada universal e a de uma mulher negra não seria?”, comenta a pesquisadora.

Na matéria temos os dados "Entre 2004 e 2014, apenas 2,5% dos autores publicados não eram brancos. No mesmo recorte temporal, só 6,9% dos personagens retratados nos romances eram negros, sendo que só 4,5% eram protagonistas da história. E, entre 1990 e 2004, o top cinco de ocupações dos personagens negros era: bandido, empregado doméstico, escravo, profissional do sexo e dona de casa"

Autores negros por falarem de racismo ou escolherem escrever sobre sua cor, criarem protagonistas negros não são só para leitores negros, não são literatura de nicho, assim como nunca se questionou se só pessoas brancas devem ler escritoras brancos. Não podemos afirmar conhecer a literatura brasileira quando tão poucos escritores negros são referenciados. 

Lia Vieira é doutorada, tem mais duas obras individuais e participou de diversas antologias. 




21.10.19

Geografia dos Ossos - Nina Rizzi



Você já abriu um livro que te abocanhou inteiro? Você já leu um livro que ruge? Você já leu um livro com garras? Das 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer, eu diria sem sombra de dúvidas que uma delas é ouvir/ler/conhecer/e/ou/fumar um cigarro com Nina Rizzi. Geografia dos Ossos, o livro que supostamente eu me atrevi a comentar nesta plataforma de compartilhamento, foi lançado no Planeta Terra em 2015 e estudos indicam que nosso solo ainda não se recuperou da passagem do fenômeno. 

Enquanto escrevo penso "será que estou exagerando?" e dai eu leio homens falando de homens inflando ego de homens que já passaram da conta em séculos de terem seus sacos e egos inflados e volto "não exagero não". Abro um livro de um homem e leio outro homem dizendo "Ele é o maior"; "O maior blablala da America Latina". Abro o livro de Nina Rizzi e digo "Ela é a maior". Sim, é sim. 

Por que poupamos elogios a escritoras? A nossas escritoras? Por que poupar elogios à Nina Rizzi?  
Mas bem, sobre Geografia dos Ossos... este livro é uma mulher-montanha, foi o que senti. Sabe, daquelas que você vai olhando de longe enquanto percorre a estrada e aos poucos vai se aproximando e aproximando e montanha vai ficando medonha, te engolindo toda... uma montanha que diferente das silenciosas rochas guardando segredos milenares, "nunca aprendi ficar calada, cândida". É poesia que atravessa a carne. É uma mulher que não se adapta, como "os peixeis não se adaptam a barragem". Nina diz que "um verso me martela / abandonar o território conquistado", os seus me martelam todos. Você diz que "o poeta nasceu pronto a ser esquecido", mas você não será Nina, não por mim, não por tantas outras. 


sem título, por ser mulher 

o que é um homem quando uma mulher é puta? 
o que é uma mulher quando um homem goza co’a sua cara? 
o que não somos quando é urgente arder e ardemos? 

num baile de verbos cospem, amam, avexam, riem, 
gozam até que eu seja puta. 
o que são eles quando me fazem puta 
senão machos gente putos? 

eu sou uma puta?


a morte do favelado, réquiem
- motivo para aidan 1.

os buracos vazios de vez
trinta e uma mil balas para pacificação
esturricam no chão
2.
um dia de manhã sentei naquele chão
tão preto tão morto

fechei os olhos garrada em seu sangue seco
e pensei em quem seria
quem foi
ele os invisíveis

abri
como uma refugiada de guerra
uma vaca magra
na fila do abate

3.
 ouço as sirenes indo embora
chegando
como uma marcha de chopin

os pássaros
o que é vivente
estão lá - longe
desse silêncio de mármore

outro carro
mais uma nota na marcha
insinuação de morte

4. perene os vinte um sabores
picolé pipoca algodão doce tapioca
que os meninos se indo
saberão ainda - ausentes

bombas pás
rastros de névoa
aqui acolá
dissipam na floresta de ossos

1.12.18

[ Comentário ] O que é Empoderamento - Joice Berth



O que é Empoderamento? é um lançamento do grupo editorial Letramento, que faz parte da coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro. Falando primeiramente da coleção, todos os livros são escritos por autores negros e autoras negras, possuem uma linguagem teórica acessível e desse modo ampliam o debate sobre temas urgentes como feminismo negro, empoderamento, racismo estrutural, lugar de fala, entre outros. Os livros não procuram encerrar os temas, mas sim abrir caminho para discussões formulando um pensamento dialético muito importante. Surpreendem quem pensa que estes assuntos passam por mero "achismo", os autores trazem uma vasta pesquisa acadêmica dando espaço e foco para o pensamento de estudiosos e estudiosas negras que em geral não são vistos como referência intelectual dentro de um sistema academicista branco e machista. 


Este é o segundo livro da coleção que leio, e como feminista branca só tenho a agradecer e aprender; tenho revisto conceitos e posicionamentos.

A discussão em torno do conceito de empoderamento tem sido cada vez mais presente em rodas informais de conversa, uma dos pontos de importância desse livro se dá em justamente trazer esse conhecimento para uma esfera "acadêmica" também, se tornando referência de estudo nas universidades. Quando debate-se o assunto, tudo gira muito em torno "da opinião de cada um", no entanto Joice Berth vai procurar a origem do termo e como se dá sua prática na vida principalmente da comunidade negra, voltando o olhar para a importância de entendermos esse termo para além de um sentimento individual, mas sim uma ação que deve refletir em mudança coletiva. Para isso, Berth cruza a ideia de empoderamento com feminismo negro, pensando em como as duas práticas são vivenciadas por mulheres negras e como isso pode ajudar a emancipação coletiva dessas mulheres.

Não é que o empoderamento não deva ser utilizado por mulheres brancas, mas pensando na interseccionalidade de opressões, nós mulheres brancas precisamos ter consciência que empoderamento vai muito mais além de um bem estar pessoal, e em como reproduzimos este "empoderamento" que muitas vezes passa por reprodução da opressão de corpos brancos para com corpos negros. Dai a polêmica por exemplo nas mídias sociais quando perguntam: "uma mulher postando uma nude é empoderamento?". Muitos desdobramentos aparecem com essa questão, mas sinto que falta leitura e aprofundamento do debate quando este acontece só por comentários. As pessoas falam "mas você não pode dizer para outra mulher o que ela deve fazer ou não, você não pode dizer para uma outra mulher o que é empoderamento", etc. Há uma distorção entre crítica e "proibição", quando há alguma crítica as pessoas já pensam que estão sendo proibidas de algo. Mas penso que isso se trata de um pouco de ego inflado; rever privilégios passa por esse lugar da crítica, querendo ou não, e o que Joice Berth traz no livro não é uma cartilha ou os dez mandamentos da mulher empoderada, mas sim um modo de pensarmos coletivamente como este termo vem em benefício de todas e não somente para perpetuar privilégios. Se para isso mulheres brancas terão que rever atitudes que talvez antes eram "liberadas" ou ditas "normais" (afinal, o bem estar pessoal de uma mulher branca magra, etc é bancado pela mídia, então que revolução é essa?), acredito que faz parte de um processo emancipatório maior do que o individualismo, se eu acho que o meu empoderamento "atrapalha" alguma coisa, talvez eu não esteja entendendo esse empoderamento numa esfera coletiva, que é o principal foco. 

Mas essas são minhas reflexões, vamos ao que interessa: o que há no livro de Joice Berth.


O primeiro capítulo que recebe o mesmo título do livro é uma apanhado geral da origem teórica do termo empoderamento. A autora passa pelos conceitos de Hannah Arendt e Focault sobre o que é poder, para assim pensarmos o empoderamento hoje. Em seguida passa por um breve histórico da origem da palavra em si, mostrando que este conceito acabou sendo incorporado de modo a fugir de seu significado original e estratégico. Berth também cita Paulo Freire e sua Teoria da Conscientização e por fim faz uma síntese das diversas teorias que juntas formam a ideia de empoderamento que ela deseja mostrar.


No segundo capítulo, a autora fala da relação de opressões estruturais com a prática do empoderamento, e pensar que a aplicabilidade da Teoria do Empoderamento, depende dessas opressões estruturais, ou seja, empoderamento também tem a ver com racismo, consciência de classe e machismo. Berth fala também do esvaziamento do termo na atualidade que gera essa dualidade individual x coletivo. Além disso fala das barreiras de grupos oprimidos ao conhecimento acerca do empoderamento. E nisso dá exemplos práticos de como mudar esse quadro. 


O terceiro capítulo trata da prática de mulheres negras que assimilam a noção de empoderamento em suas vidas antes mesmo de ter acesso ao conhecimento formal do tema. Nesse sentido, Berth ressiginifica o conceito pela experiência do feminismo negro e de formas coletivas de superação das opressões adotadas pelas comunidades negras. 


No quarto capítulo, Berth aborda a questão da estética, pois esta também está associada ao poder. Assim, a autora tece críticas sobre como a população negra carece de uma representação esteticamente "empoderadora" na sociedade, no sentido de se verem em capas de revistas, em personagens bem sucedidos nas novelas, filmes e livros, etc. Intelectualmente e esteticamente negros e negras não são referência em igualdade com brancos, isso diz tudo sobre relações de poder e empoderamento. A suposta inferioridade da aparência negra foi usada para justificar o sistema de opressão. Berth também fala sobre a afetividade dentro das relações amorosas das mulheres negras, que se vêem como "desasjustadas" e são tratadas muitas vezes como descartáveis, gerando um sentimento de "auto-ódio". Porém, a autora atenta que a questão estética é importante, mas não o mais importante ou o único foco.

Nas considerações finais, Joice Berth sintetiza os principais pontos de sua pesquisa, salientando também que o processo de empoderamento passa pelo individual sim, mas visa o coletivo e também da impossibilidade de um empoderar o outro. Importante lembrar que é um processo antes de tudo político que visa mudar o estado atual das coisas, portanto é preciso estar atento para venda de um empoderamento que não mexe com as estruturas de poder de fato.

"Empoderamos a nós mesmos e amparamos outros em seus processos"

144 anos de Virginia Woolf

Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...