[...] quanto mais eu pensava sobre o que são as fotos, mais complexas e sugestivas elas se tornavam.
29.6.22
Sobre Fotografia - Susan Sontag [Trechos] [leitura 37]
[...] quanto mais eu pensava sobre o que são as fotos, mais complexas e sugestivas elas se tornavam.
18.5.21
Todos os meu humores - Dia Nobre
Em Todos os meus humores, Dia Nobre fez eu me reconectar com passagens internas em mim, a poesia se transforma no material utilizado por exploradores da alma.
Ao lê-la, pecorri desertos, alpes, zonas abissais e florestas. Em cada paisagem, ou em cada um de seus humores, reconheci fragmentos meus e me senti abraçada, menos sozinha e mais viva.
Às mulheres, os adjetivos desequilibrada, histérica, raivosa, frígida são constantes ao longo da História e da Literatura. E como historiadora, Dia Nobre conseguiu unir em sua poesia a memória de nossas antepessadas queimadas, julgadas, apedrejadas e levantar uma fogueira não para morrermos, mas para renascermos, com o fogo de nosso sexo.
Em Todos os meus humores não escondemos nossas camadas, ossos, pele, aqui é tudo exposto, goste ou não. E quando Dia afirma que "é anônima", ela diz que é todas nós.
Os poemas também falam muito sobre o amor, o amor a outras mulheres, envoltos em desejo e decepções com intensidade e leveza ao mesmo tempo.
No livro, ela mistura poesia e prosa poética, alguns poemas são mais breves e outros mais longos. Há na maioria deles um tom bem cotidiano e íntimo que não nega a influência de Ana Cristina Cesar e eu amo!
Ao terminar o livro senti que não escrevo, enlouqueço ou leio sozinha, porque "não me importam as pedras / as transcendo na ponta de minha caneta".
31.3.21
[Resenha] Ninguém vai lembrar de mim - Gabriela Soutello
É um livro difícil de pegar nos braços, são tantos sentimentos, imagens e sensações que me perfuram que gostaria de conseguir reter todas as palavras aqui na retina, para nunca esquecer.
11.3.21
A mulher mais amada do mundo - Vanessa Passos
Alguns livros nos marcam pelos longos meses dedicados a eles como uma travessia persistente.
Outros pela velocidade com a qual atingem nosso íntimo como uma farpa, um pequeno objeto perfurando nosso corpo e latejando por alguns dias.
Nesse segundo grupo está o livro A mulher mais amada do mundo, de Vanessa Passos.
São 13 contos que possuem no máxino duas páginas cada, todos com mulheres como protagonistas, tazendo histórias sobre solidão, luto, descobertas interiores.
O grande foco são as personagens com suas contradições e veredas, que me fizeram refletir sobre as mulheres que habitam em mim - pois ao longo da leitura me identifiquei com várias.
Em nossa sociedade, a união entre mulheres foi destruída como projeto político, como encontramos no livro Calibã e a Bruxa de Silvia Federici. Sentimentos nocivos de competitividade e rebaixamento entre mulheres são incentivados na mídia e nas representações artísticas.
Na contramão de tudo isso, o livro de Vanessa Passos surge desse fogo usado para queimar nossas antepassadas, cada história pega na sua mão e te convida a também contar as suas. São contos-gritos de liberdade contra esse apagamento.
Em um dos contos, quando a neta de Alice decide contar a história da avó, não é só sobre ela que a personagem se refere, mas da vida de milhares de mulheres que não foram ouvidas, que não acham que suas vidas são banais demais para a literatura, e aqui, eu sinto que cada história que temos dentro de nós importa, muito.
Os contos me fazem observar também as mulheres ao meu lado e as que já passaram na minha vida; me faz amar mulheres de modo geral, como um coletivo, me faz querer que cada uma se sinta: a mais amada do mundo.
10.3.21
Todos os nós, Maria Luiza Maia
Todos os nós é o segundo livro da escritora baiana Maria Luiza Maia. O título, de início, me chamou atenção pela abertura de dualidade em que remete a nós (angústias) internos, as "falas entupidas" como diz Ana Crisitina Cesar, ou "nós" como uma multidão contida em si. E sem chegar a nenhuma conclusão, sinto ambos.
Li a poesia de Maria Luiza como uma conversa infinita no espelho, como se eu ficasse tentando entender o que é meu corpo no mundo.
Aliás, essa investigação do corpo é um tema transversal durante o passeio nessa leitura.
Ao longo do livro há uma sequência de poemas intitulados "Para Clara", que não são seguidos um do outro, em que Maria constrói a imagem marcante de um corpo que tenta se costurar.
Achei essa sequência o ponto alto do livro, principalmente por serem saltados, e me deu a sensação de atravessar vários sentimentos, mas sempre voltar para me perguntar como me costurar quando rasgada. Ao que Maria avisa: "não espere que alguém os emende".
Os poemas, assim, vasculham a estrutura desse corpo rompido, espatifado e também dialogam com o próprio fazer poético com ironia como quando conclui que "os poetas são mentirosos" e rebate possíveis críticas sobre escrever um poema que não tem rimas e palavras difíceis.
Todos nós é uma leitura que me faz enfrentar meus buracos, minha solidão, com poemas que ficam no ar durante um tempo "para que a pele se acostume com os pontos".
19.11.20
Narrativa Fisgante: Fique Comigo (Ayòbámi Adébáyò)
16.11.20
As cavernas que habitam mulheres ferinas: sobre Um Buraco com meu nome, de Jarid Arraes
Tem livros que sinto que vão me cortar fundo, então eu preparo a carne por um tempo, fico ali observando de longe por alguns meses ou anos até, apesar de saber que nenhuma preparação suaviza o contato com poemas que tomo nas mãos como vulcões de coisas que eu mesma guardava e não sabia.
Assim que vemos Um Buraco com Meu nome de longe, o livro nos encara como uma fera, a capa é preta ao fundo, com rabiscos cinzas preenchendo-a quase toda, e o título em vermelho sangue e letras grossas, assim: UM BURACO COM MEU NOME.
Esse é o primeiro livro em poesia da escritora cearense Jarid Arraes, um nome já reconhecido na literatura contemporânea brasileira por seus contos e cordéis. É com ele que Jarid, funda o selo da editora Jandaíra, Ferina, dedicado à publicação de mulheres.
Um buraco como uma caverna onde habitam mulheres ferinas, foi essa a imagem que me veio ao engolir o livro, dedicado "aos que nem sempre encontram matilha". Dividido em quatro partes: Selvageria; fera; corpo aberto e caverna a obra também contém ilustrações da própria autora em desenhos que lembram pinturas rupestres. Me trouxe a sensação também de uma mulher presa, desenhando e escrevendo versos sobre sua solidão.
A primeira e segunda parte vão trazer poemas de tom insurgente, tecendo sobre o corpo da mulher, a cidade, solidão, a loucura e as relações entre gêneros.
A terceira começa com um poema inicialmente convidativo: "venha desenhar o mapa do meu corpo aberto", mas logo mostra que para conhecer o "meu" corpo, é precis admirar as vísceras também. Um corpo em que "paredes desabam" e se busca as linhas da loucura. Os versos vão investigar cada fio de cabelo, peso e tamanho desse corpo-fera-aberto, também passando por questões de sua identidade como mulher negra.
O livro termina com o poema Chama. trazendo o fogo como um ímpeto de regeneração. Uma chama quem vem pelo contato por meio da escrita, da palavra - talvez.
Às selvagens, às loucas, às não amáveis, Um Buraco com meu Nome é uma pergunta, que nos torna selvagens são as interrogações que nunca conseguiram, por mais de séculos que tentaram, nos calar.
Os poemas-canções de Prelúdio in Blue, de Rafaella Britto
Because the night belongs to lovers, diz a música de Patti Smith, e é assim que sinto também os poemas de Prelúdio in Blue, seres pertencentes à noite, e nascidos de um profundo amor.
"Blue, songs are like tattoo" são os primeiros versos da famosa música Blue da cantora Joni Mitchel, que está na epígrafe do livro. É assim que Rafaella leva essa música e tantas outras que a inspiraram na criação de seus poemas como tatuagem, como parte de sua pele.
Inclusive, ela afirma em uma entrevista que o livro é uma busca por sua própria identidade como mulher negra, e nesse movimento de elevar grandes artistas negros da música, a escritora constrói em seus poemas-canções um percurso de memória e descoberta.
Além da música, o cinema é também uma arte bastante referenciada no livro. Rafaella é cofundadora e editora da revista digital Cine Suffragette, dedicada às mulheres e minorias no cinema e constrói cenas que revisitam atmosferas cinematográficas como em Amado Mío:
"Ama-me para sempre
na ilusão de um velho cinema"
Prelúdio in Blue é um mosaíco poético que chega para o leitor como a descoberta de uma caixa de fotografias antigas, revelando a contrução de uma vida que emana Arte, uma leitura inspiradora que nos faz pensar quanto de nós é constitúido por belos momentos em que alguém decidiu criar algo e colocar no mundo.
10.10.20
Chamada: leitura coletiva da obra de Sylvia Plath
Hoje é dia 10 de
outubro, marcado como Dia Mundial da Saúde Mental. Acabei por relacionar essa data com a leitura
coletiva da obra de Sylvia Plath. Pra mim, Sylvia é muito mais do que uma
autora que teve uma morte marcante, mas sim, uma mulher que viveu com
intensidade, paixão e poesia de forma que inspira gerações e escritores até
hoje. Lembrei dessa data não pela morte de Sylvia, mas por ela ter tido a força
e capacidade de transformar a imensidão de pensamentos e sentimentos que ela
carregou em seu corpo e alma em arte.
É com o
sentimento pulsante do que a obra de Sylvia Plath tatuou literalmente em mim (tenho
tatutado um trecho de A Redoma de Vidro) que tive o desejo de propor essa
leitura coletiva. Quero compartilhar com vocês um percurso pela poesia vibrante
de Sylvia, uma mulher que conseguiu escrever com tamanha consciência as angústias,
dores e prisões do seu gênero em uma poesia de energia extraordinária.
Das 7 pessoas
inscritas na leitura, todas são mulheres, isso diz muito da falta de interesse
dos homens pela escrita das mulheres. Livros escritos por homens são
considerados clássicos que tratam de temas universais, se eu tivesse propondo
uma leitura coletiva de algum homem clássico teriam alguns outros homens
interessados.
Então, a leitura
coletiva também vem para questionar esse paradigma. Mulheres escrevendo sobre
seus sentimentos SÃO universais, são os sentimentos da humanidade também.
Mulheres leem mais mulheres porque como seres humanos, começamos a nos
questionar que retrato estamos encontrando na literatura feita por homens.
E homens precisam
ler mais mulheres para desfazerem seus estereótipos e a maneira como
desenvolvem as relações.
Estou muito
empolgada com o percurso que vamos fazer! E ainda espero que mais pessoas venha
se juntar a essa leitura para compartilharmos nossas percepções e desfazer a
ideia da leitura como um ato solitário. Vamos ler juntos e juntas Sylvia Plath?
"Como saber
quem eu sou? Como permitir que meu senso inato de sentido possa fluir e me
vincular com outras pessoas e com o mundo? Por que essa sensação de horror toma
conta de mim?" (Sylvia Plath, Diários)
24.6.20
Ela Disse - Jodi Kantor e Megan Twohey
"Ela Disse - os bastidores da reportagem que impulsionou o #metoo" vai relatar todo o processo das jornalistas Jodi e Megan para publicarem uma matéria expondo décadas de assédio sexual e a compra do silêncio das vítimas por meio de acordos de confidencialidade cometidos pelo produtor de cinema Harvey Weinstein.
7.6.20
Reflexos num Olho Dourado - Carson Mccullers
Carson é uma escritora que infelizmente ainda tem pouca visibilidade no Brasil apesar de sua qualidade literária, contemporânea de Faulkner, Capote e Tenesse Williams, a estadunidense tem um estilo original e foi percursora em trazer temas polêmicos para a literatura.
24.5.20
Linha M - Patti Smith
Linha M é composto por memórias de diversas épocas da vida da autora em que ela traz um olhar único, íntimo e mágico sobre muitas questões as quais as experiências de vida que ela teve a levaram a refletir, é um livro de alguém eternamente aberta ao mundo para aprender, alguém que olha o mundo sempre com olhos curiosos e vivos. Um livro que te faz querer ter paixão pela vida mesmo nos momentos mais tristes.
"Todos os escritores são vagabundos - espero ser considerada uma de vocês um dia."
Ir ao cemitério desses artistas é outro dos rituais que ela cultiva, como que para celebrar a vida que tiveram e o que puderem nos deixar. Patti os faz ainda vivos.
9.5.20
Mulheres na Luta - Marta Breen e Jenny Jordahl (parte 1)
29.4.20
[Resenha] Harry Potter e o Cálice de Fogo - J.K. Rowlling
24.4.20
[Resenha] Morango e Chocolate - Aurélia Aurita
26.3.20
[Comentário] Condolências - Virginia Woolf (Conto)
11.3.20
[Resenha] Mulher Mat(r)iz - Miriam Alves
17.12.19
Só as mulheres Sangram - Lia Vieira
Só as mulheres Sangram foi publicado em 2011 e reúne 10 contos que giram em torno do cotidiano da população negra brasileira em diversos contextos. O livro surge como urgência de existir, denunciar e rexistir. Lia Vieira dedica sua obra a "celebrar a mulher que dói a dor de ser", "para aquelas que proclamarão, a cada dia, o fim da exploração e da opressão e se moverão sobreviventes em direção à liberdade".
Numa matéria do El País, a pesquisadora e professora Regina Dalcastagnè mostra dados sobre o assunto e afirma: "Talvez eles não sejam editados porque são sempre encarados como uma literatura de nicho. Por que a literatura de um homem branco, de classe média, é considerada universal e a de uma mulher negra não seria?”, comenta a pesquisadora.
Na matéria temos os dados "Entre 2004 e 2014, apenas 2,5% dos autores publicados não eram brancos. No mesmo recorte temporal, só 6,9% dos personagens retratados nos romances eram negros, sendo que só 4,5% eram protagonistas da história. E, entre 1990 e 2004, o top cinco de ocupações dos personagens negros era: bandido, empregado doméstico, escravo, profissional do sexo e dona de casa"
Autores negros por falarem de racismo ou escolherem escrever sobre sua cor, criarem protagonistas negros não são só para leitores negros, não são literatura de nicho, assim como nunca se questionou se só pessoas brancas devem ler escritoras brancos. Não podemos afirmar conhecer a literatura brasileira quando tão poucos escritores negros são referenciados.
21.10.19
Geografia dos Ossos - Nina Rizzi
Você já abriu um livro que te abocanhou inteiro? Você já leu um livro que ruge? Você já leu um livro com garras? Das 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer, eu diria sem sombra de dúvidas que uma delas é ouvir/ler/conhecer/e/ou/fumar um cigarro com Nina Rizzi. Geografia dos Ossos, o livro que supostamente eu me atrevi a comentar nesta plataforma de compartilhamento, foi lançado no Planeta Terra em 2015 e estudos indicam que nosso solo ainda não se recuperou da passagem do fenômeno.
1.12.18
[ Comentário ] O que é Empoderamento - Joice Berth
"Empoderamos a nós mesmos e amparamos outros em seus processos"
144 anos de Virginia Woolf
Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...
-
Desde dezembro o correio nunca me fez tão feliz, recebi presente de amigo secreto, recebi livros de aniversários, recebi cartinha e desenhos...
-
Seja Homem é um livro que busca analisar a construção da masculinidade no patriarcado, discutindo como as práticas do que seria “ser um home...





















