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25.11.18

Textos - Outubro/Novembro Acadêmico



Quando falamos de leituras do mês, geralmente consideramos livros completamente concluídos. Porém em Outubro e Novembro eu estava considerando que não tinha lido nada, pensando nesse sentido. No entanto em Outubro me dei conta que os textos que tenho lido na faculdade, no meu grupo de teatro e no grupo de estudos que faço parte são igualmente importantes. Novembro uma semana inteira voltada para um artigo que eu tinha que escrever, além de não ter tido muito tempo livre pois explodi com compromissos, ensaios, grupo de estudo, trabalho novo. Comecei a dar aula e isso também me levou um tempo extra sala, enfim, por isso esse mês foi bem arrastado em outras leituras, então vou falar das leituras de Outubro e da metade de Novembro que me trouxeram muitas reflexões.



Os Fuzis da Senhora Carrar, Bertolt Brecht: é uma peça escrita em 1937, e se passa na Espanha, no período de luta contra o ditador Francisco Franco. Thereza Carrar é uma mulher que perdeu o marido na guerra e depois disso tomou uma posição supostamente de neutralidade, porém com o desenrolar da peça percebemos que de um jeito outro de outro ela toma posições que a tiram desse lugar de neutralidade, mesmo que ela pense que está se eximindo de tomar um "partido"; é uma obra atualíssima para pensarmos essa situação: será que é possível ser neutro numa guerra? Em algum período de conflito político? Não pude deixar de refletir sobre o momento atual do Brasil. Clica no título para baixar o pdf da peça.


A Mãe, Bertolt Brecht: Esta peça foi baseada no romance homônimo de Gorki, porém traz algumas alterações na própria narrativa. Brecht pega a fábula central de Gorki, mas adapta-a para sua estética, chamada de teatro épico, que intencionava passar uma mensagem clara para o público e impulsionar uma discussão dialética. Nesta obra vemos vários elementos do teatro épico de Brecht, como canções e narração dos fatos passados, ao invés de uma estrutura totalmente dramática que só mostra o presente. A Mãe conta história de Pelagea Wlasowa, dona de casa e analfabeta, mãe de um operário que luta por causas trabalhistas e socialistas contra o tzar, por desejar defender o filho, Pelagea se envolve na panfletagem que defende a greve nas fábricas, mas aos poucos entende que esta é também a sua luta, e se envolve por completo do movimento operário participando ativamente. É uma obra pró-comunismo com questões claras quanto a isso, mas conduz essa discussão de maneira muito prática propondo reflexões sobre nossa vida cotidiana como classe trabalhadora.

Repensando Ideologia e Currículo, Michael W. Apple: li esse texto para um seminário  da disciplina "Currículos e Práticas Educativas", nele o autor comenta sobre seu livro "Ideologia e Currículo" e entre muitas questões que aborda, uma das principais é que não existe escola neutra.  Outro texto que me fez pensar no que estamos vivendo hoje com esse debate sobre "escola sem partido". Ele afirma que todo currículo escolar tem por trás uma ideologia e que até o momento tem sido a ideologia dominante, que conduz os estudantes para não refletirem sobre a sociedade e não desenvolverem senso crítico. Os argumentos do autor são muito melhor elaborado do que estou dizendo aqui, vale a leitura.

A Condição Humana, Hannah Arendt (apenas alguns capítulos): Bom, este não me atrevo a escrever muito, só contextualizar que li no grupo de estudos que participo na faculdade em que debatemos "dramaturgia e política", os escritor de Hannah Arendt vieram para discutirmos filosoficamente como foi desenvolvida a noção de político na sociedade. É um livro que quero ler com mais calma e me aprofundar melhor no futuro.




3.10.18

Resumo de Setembro + planejamento + o que estou lendo




Setembro foi aquele mês que li "pouco", mas li muito ao mesmo tempo. De livros finalizados foi apenas um: Um Teto Todo Seu, da Virginia Woolf, pro clube de Leituras Feministas.

Dei continuidade a minha luta para reler e fazer anotações de "O Segundo Sexo". Andei um pouco com "A Revolução das Mulheres" e um pouquinho com "A Arte de ator", esse último dei mais uma pausa, mas entendi que não será um livro que vou terminar na mesma velocidade de um livro de ficção, é um livro extenso com muito conteúdo e meio que "guia", então vou ler na calma mesmo, mas creio que termine este ano ainda. Decidi lê-lo somente na faculdade pois não estava conseguindo encaixar nas minhas leituras de casa. 

Outras leituras mais avulsas foram, a peça "Os fuzis da Senhora Carrar", que li numa reunião com meu grupo de teatro, e trechos da peça "As Criadas", precisei ler para compô uma cena de 10 minutos para a disciplina Teoria e História do Teatro II. Foi um mês cansativo e outubro vai ser mais ainda, eu já quero férias!



Sobre organização/planejamento, eu testei um tal de "planejamento coreano" por três dias, foi interessante mas seria algo difícil de acompanhar, quem tiver curiosidade procura algum vídeo no Youtube, mas em resumo é um planejamento em que você cronograma suas atividades de 10 em 10 minutos, é interessante porque diferente do Pomodoro que exige 25 minutos de concentração, esse te dá uma liberdade de fazer várias atividades, mas por outro lado eu não tive paciência de marcar tudo que eu fazia a cada 10 minutos. Resolvi abandonar a método de estudos Pomodoro esta semana, pois estou bem doente e tenho me deixado bem livre pra me cuidar mentalmente também.

Estou usando no momento dois cadernos para me organizar, um que chamo de caderno rascunho, que eu mesma fiz e outro foi meu Bullet Journal do ano, que voltei a usar agora, mas mais resumido. 



Não fiz planejamento mensal, apenas semanal, colocando uma tabela dividida por horas, desde as 6h até a 00:00, porém essa semana por conta da gripe eu não estou controlando nada. Também achei que ia começar a trabalhar essa semana e até agora nada da diretora me dá um retorno. 

No caderno rascunho depois de vários rabiscos, eu fiz um quadro com 7 lacunas correspondentes aos dias da semana e coloquei uma meta de estudos em cada dia, bem básico. A diferença é que eu só passo isso pro bujo se eu conseguir cumprir as metas. O modelo do plano rascunho aqui.

Então no bujo eu fiz uma página chamada "Plano de Estudos", com um quadradinho e uma linha para escrever o nome do livro e a página/capítulo que eu cheguei, assim posso acompanhar meu progresso na semana, pois fiz 3 linhas para cada dia, já que entendi que meu limite é ler no máximo 3 livros diferentes por dia. Você pode fazer o download do modelo aqui


Outro planejamento foi o décimo sexto cronograma para ler O Segundo Sexo, haha dessa vez colocando CINCO páginas por dia:




Para finalizar, um resumo do que estou lendo nesta primeira semana de Outubro
  • A Revolução das Mulheres (faltam 30 páginas)
  • O Caminho de Casa, Yaa Gyasi (estou em 82%)
  • O Segundo Sexo Vol. 1 (segunda parte: história)
  • Texto e Jogo, Ingrid Domien Koudela (pg. 60)
  • Dia bonito pra chover, Lívia Natália, poesia (termino hoje provavelmente)



Leituras Paradas (pretendo retornar em novembro):
  • Todos os Contos, Clarice Lispector
  • Correspondências, Clarice Lispector 

25.9.18

[Teatro] O TEATRO ÉPICO DE BRECHT - Reinaldo Bossmann



Quem foi Brecht?





Bertolt Eugen Friedrich Brecht, poeta, prosador, dramaturgo c teatrólogo alemão, nascido a 10 de fevereiro de 1898 em Augsburg, faleceu a 14 de agosto de 1956 em Berlim.

Com 16 anos de idade começou a escrever as primeiras poesias e contos, que se publicaram em jornais. Depois tornou-se crítico teatral, dramaturgo do teatro  em Munique, e, em 1924, dramaturgo do "Teatro Alemão" em Berlim, sob a direção de Max Reinhardt. 

 A agressão é para ele finalidade em si, fazendo dela um método, não querendo o drama em si, mas a forma artística adequada em favor da demonstração convincente para fins de seu niilismo. Assim, para Brecht teatro e palco não significam diversão teatral. Em conseqüência disso, a construção de suas peças não é uniforme, mas representa somente sequências de imagens, muitas vezes sem ação, intercaladas com "songs", música a jazz, projeções de slides, vozes de alto-falantes. provindas de faixas e cartazes que demonstram a situação do homem e da vida, na sua miséria, dependência a poderosos, na sua maldade e perversidade. Cartazes como "O homem c ordinário", "O mundo é pobre, o homem é mau" c "Comer primeiro, depois a moral" mostram a concepção niilista de Brecht. O emprego desses recursos e da técnica no palco, Brecht não os inventou, mas copiou e aperfeiçoou, graças ao teatro político de Erwin Piscador.


 A obra dramática de arte para ele não é mais o prazer de sentimentos, mas a instrução, não o permanecer em passividade, mas o despertar da atividade, o caminho livre a decisões. Com isso, transforma o palco em sala de aula, onde se deve demonstrar a maneira marxista, e escreve para o teatro épico peças didáticas 


A teoria do teatro épico de Brecht pode ser denominada teoria do teatro de parábola, consiste na apresentação de um acontecimento por meio de imagens dramáticas. Nessa teoria, a ação não tem mais o desenvolvimento da tensão, com o ponto culminante de um conflito, até à catástrofe, mas a montagem de situações à maneira épica, com intercalações diversas, com a finalidade de fazer comentários a favor da ação. Assim, o teatro é uma simples função a serviço da instrução política e da ativação do proletariado.


A forma drámatlca do teatro: 
É ação. 
Envolve o espectador na ação. 
Consome-lhe a atividade. 
Possibilita-lhe sentimentos. 
Proporciona-lhe acontecimentos. 
O espectador é submerso em alguma coisa. 
Trabalha-se com sugestões. 
Os sentimentos são conservados como naturais. 
O espectador está no interior da ação, participa. 
O homem é suposto conhecido. 
O homem é imutável. Interesse apaixonado pelo desfecho. 
Uma cena é causa ou efeito da outra. 
Desenvolvimento linear (orgânico).
Evolução continua.
O mundo como é. 
O homem como dado fixo. 
O pensamento determina o ser. 
Sentimento.


A forma épica do teatro: 
É narração. 
Faz dele um observador. 
Desperta-lhe a atividade. 
Exige-lhe decisões.
Proporciona-lhe conhecimentos. 
O espectador está diante de alguma coisa. 
Trabalha-se com argumentos
Os sentimentos são elevados até a tomada de consciência. 
O espectador está de frente, analisa. 
O homem é objeto de investigação. 
O homem se transforma e pode transformar. 
Interesse apaixonado pelo desenvolvimento. 
Cada cena existe por si. 
Desenvolvimento retilíneo (montagem). 
Saltos. 
O mundo como será. 
O homem como processo. 
O ser social determina o pensamento.


Nos ensaios para as apresentações. Brecht propõe três constelações auxiliares que podem servir para um distanciamento das falas e das ações de seus personagens: 

a transposição do texto a ser falado para a terceira pessoa do singular; 
a transposição para o tempo passado; 
a dicção do texto de instruções c comentários. 


Esse efeito de distanciamento (Verfremdungs-Effekt) tem sua origem na arte da representação chinesa, e baseia na neutralização absoluta dos meios c expressões tradicionais.O recurso do distanciamento tem como objetivo impedir a existência de "campos hipnóticos" entre o palco e auditório. O autor só deve despertar a reação do espectador, não deve provocar sentimentos dele, evitando, assim, a completa identificação com o personagem que representa. Com isso. Brecht combate a tradição aristotélica e a concepção de Schiller sobre o teatro como instituição moral.

A música para Brecht: Na ópera dramática está colocada ao serviço, realça, impõe e ilustra o texto, descreve uma situação psicológica, enquanto a música da ópera comunica, comenta e pressupõe o texto, e, finalmente, toma uma posição e indica um comportamento



24.9.18

[Planejamento] Não sei viver sem




Eu estou sempre mudando e repensando formas de organizar minha vida porque simplesmente não consigo viver sem planejamento, mesmo que dê tudo "errado", como hoje. O Planejamento não serve exatamente pro seu dia sair impecável, mas sim para que, mesmo se acontecer algo que não permita que você siga tudo milimetricamente, você tem um norte pra onde ir, então ter planejado minimamente o seu dia/semana/mês/semestre, vai te permitir fazer adaptações.

Na postagem anterior eu compartilhei meu planejamento da semana, pois bem, hoje é segunda e eu já não segui praticamente nada do que planejei, o que me fez pensar em: será que as minhas segundas-feiras são 'boas' para recomeços ou inícios como é pra todo mundo? Acho que não. Quando fiz o planejamento eu achava que iria começar meu novo emprego na segunda, quando recebi um email na sexta avisando que não seria, dai pensei, ok, "vou fingir que vai ser a mesma coisa", mas definitivamente (ou talvez não), segunda-feira ainda traz um gostinho da bagunça do domingo, geralmente não durmo em casa e tem todo um trajeto até chegar em casa que eu nunca planejo. Enfim Ao chegar em casa e ver que já tinha "perdido toda a manhã", resolvi primeiro revisar as prioridas

- Exercícios Físicos
- Estudar

Ai, mas tem que acordar 5:00 da manhã e fazer a tal rotina matinal milagre da manhã porque senão seu dia vai ser uma bosta. Foda-se. Não vai. O que me impede de começar a me exercitar as 11h se é esse o tempo que tenho? Assim fiz, pesquisei uma sequencia de exercícios e em 15 minutos eu tava suando pelas tabelas - pois estou bem sedentária, por isso me exercitar de alguma forma todos os dias está sendo minha prioridade.

Ah, um teste, desativei meu perfil do instagram - nunca passei nem uma semana com o perfil desativo ou sem postar alguma coisa e quero de vez fazer esse teste. Está sendo difícil pois eu vi dois filmes e estou lendo muita coisa legal e tenho vontade de postar sobre, mas de todas as vezes que eu falei sobre o Instagram e como me prejudica, nenhuma das vezes eu realmente sumi de lá... e depois eu fiquei pensando, por vezes falar do que leio e vejo no Instagram me deixa frustrada porque eu sinto que as pessoas gostam mesmo é de quem te diz pra comprar a todo instante ou quem tem uma vida perfeita pra mostrar. Eu não tenho dinheiro, eu não marco mil marcas em cada postagem, eu mal compro livro e minha casa não é a dos sonhos que faz a fama de muitos perfis por aí, isso me irrita como as pessoas são fúteis e bobas e como se usam de um perfil de estudos e livros para na verdade incentivar mais e mais consumo material. Pouco vejo e pensamento crítico, pouco vejo de mudança de fato. Enfim, falando comigo mesma pois sei que ninguém lê meu blog e aqui estou salva <3

Voltando... eu cancelei todas as minhas metas de livros e tenho seguido algumas leituras coletivas, o que tem sido bom e algo que sempre quis fazer, quero terminar registrando alguns futuros livros que quero ler, e futuros estudos <3  (baixe aqui)





Outra coisinha que esqueci de fazer no cronograma anterior foi visualizar a quantidade de horas livres, então vai aqui outra tabelinha pra isso (baixe aqui)


21.9.18

Cronograma de Estudos



Lembra que eu disse que tinha 7 clichês de melhorar a organização/rotina de estudos que estavam funcionando comigo? Pois é, acabou que não deu certo haha porque eu não consigo estabelecer uma rotina fixa. Então, essa semana que resolvi abandonar algumas dicas e apenas fazer um cronograma de horário, não de assunto como eu vejo em geral, pois meus horários são muito loucos e não dava pra que delimitar os temas de estudo da semana, mas sim tentar encaixar o que preciso estudar nos espaços de tempo quebrados que tenho. Ficou mais ou menos assim, deixei tudo limpo mas a ideia é colocar do lado tudo que você precisa estudar e nessa coluna azul mais claro os seus horários (ocupados e livres) e ir encaixando as leituras e os estudos nos espaços livres :D

Baixe o cronograma aqui


Outra dica que comecei a seguir é música de estudo. Aqui em casa é muito barulhento sempre então eu preciso de música pra não ouvir nada mais, encontrei uma playlist no spotify chamada "Just Focus" que me agradou muito.


18.9.18

[Fichamento] O segundo sexo Vol 1. - 3/O ponto de vista do materialismo histórico





"A humanidade não é uma espécie animal: é uma realidade histórica. A sociedade humana é uma antiphisis: ela não sofre passivamente a presença da Natureza, ela a retoma em suas mãos. Essa retomada de posse não é uma operação interior e subjetiva; efetua-se objetivamente na práxis. Assim, a mulher não poderia ser considerada apenas um organismo sexuado: entre os dados biológicos, só têm importância os que assumem, na ação, um valor concreto; a consciência que a mulher adquire de si mesma não é definida unicamente pela sexualidade.


Ela reflete uma situação que depende da estrutura econômica da sociedade, estrutura que traduz o grau de evolução técnica a que chegou a humanidade" pg. 83


Na primeira página, Simone analisa que por meio das teorias do materialismo histórico podemos refletir que as condições que caracterizam a mulher não estão ligadas somente a biologia, mas atreladas a um contexto histórico. Em seguida, Simone reflete que a força física da mulher não seria suficiente para criar desigualdade com os homens, tendo em vista que:


"No tempo em que se tratava de brandir pesadas maças, de enfrentar animais selvagens, a fraqueza física da mulher constituía uma inferioridade flagrante; basta que o instrumento exija uma força ligeiramente superior à de que dispõe a mulher para que ela se apresente como radicalmente impotente. Mas pode acontecer, ao contrário, que a técnica anule a diferença muscular que separa o homem da mulher: a abundância só cria superioridade na perspectiva de uma necessidade; não é melhor ter demais do que não ter bastante. Assim, o manejo de numerosas máquinas modernas não exige mais do que uma parte dos recursos viris. Se o mínimo necessário não é superior às capacidades da mulher, ela torna-se igual ao homem no trabalho. Efetivamente, pode-se determinar hoje imensos desenvolvimentos de energia simplesmente apertando um botão" pg. 84

Quanto às servidões da maternidade, elas assumem, segundo os costumes, uma importância muito variável: são esmagadoras se se impõem à mulher muitas procriações e se ela deve alimentar e cuidar dos filhos sem mais ajuda; se procria livremente, se a sociedade a auxilia durante a gravidez e se se ocupa da criança, os encargos maternais são leves e podem ser facilmente compensados no campo do trabalho. É de acordo com essa perspectiva que Engels retraça a história da mulher em A origem da família. Essa história dependeria essencialmente da história das técnicas. pg 84

Por essa pesquisa, o trabalho doméstico - desde épocas remotas destinado a mulher - não era visto como menor, mas de igual importância na vida econômica. Para Engels, a derrota do sexo feminino, começa com a propriedade privada.

"Com a descoberta do cobre, do estanho, do bronze, do ferro, com o aparecimento da charrua, a agricultura estende seus domínios. Um trabalho intensivo é exigido para desbravar florestas, tornar os campos produtivos. O homem recorre, então, ao serviço de outros homens que reduz à escravidão. A propriedade privada aparece; senhor dos escravos e da terra, o homem torna-se também proprietário da mulher. Nisso consiste “a grande derrota histórica do sexo feminino”. Ela se explica pelo transtorno ocorrido na divisão do trabalho em consequência da invenção de novos instrumentos"


Assim,

" a opressão social que sofre é a consequência de uma opressão econômica"

Assim, Engels acredita que a emancipação da mulher só ocorrerá:

"quando (a mulher) puder participar em grande medida social na produção, e não for mais solicitada pelo trabalho doméstico senão numa medida insignificante. E isso só se tornou possível na grande indústria moderna, que não somente admite o trabalho da mulher em grande escala como ainda o exige formalmente...” Deste modo, o destino da mulher e o socialismo estão intimamente ligados, como se vê igualmente na vasta obra consagrada por Bebel à mulher. “A mulher e o proletário”, diz ele, “são ambos oprimidos” "


Engels coloca em foco a opressão da mulher por conta das relações de trabalho, no entanto, entendo eu, que este pode ter sido o início da opressão, porém fatores religiosos e a exploração sexual do corpo da mulher contribuíram para fortalecer essa opressão. E Simone o critica:

"Ele compreendeu muito bem que a fraqueza muscular da mulher só se tornou uma inferioridade concreta na sua relação com a ferramenta de bronze e de ferro, mas não viu que os limites de sua capacidade de trabalho não constituíam em si mesmos uma desvantagem concreta senão dentro de dada perspectiva. É porque o homem é transcendência e ambição que projeta novas exigências através de toda nova ferramenta. Quando inventou os instrumentos de bronze não se contentou mais com explorar os jardins; quis arrotear e cultivar vastos campos; não foi do bronze em si que jorrou essa vontade" pg. 88

"Se a relação original do homem com seus semelhantes fosse exclusivamente uma relação de amizade, não se explicaria nenhum tipo de escravização: esse fenômeno é consequência do imperialismo da consciência humana que procura realizar objetivamente sua soberania. [...]

É verdade que a divisão do trabalho por sexo e a opressão que dela resulta evocam, em certos pontos, a divisão por classes, mas não seria possível confundi-las. Não há na cisão entre as classes nenhuma base biológica." pg. 88

"suprimir a família não é necessariamente libertar a mulher: o exemplo de Esparta e o do regime nazista provam que, embora diretamente ligada ao Estado, ela pode ser oprimida pelos machos" pg. 89

Finaliza, afirmando que

"a. O valor da força muscular, do falo, da ferramenta só se poderia definir num mundo de valores: é comandado pelo projeto fundamental do existente transcendendo-se para o ser." 

3.9.18

[Fichamento] O segundo sexo Vol 1. - 2/O Ponto de vista Psicanalítico



Esse foi o capítulo mais difícil de chegar perto do que Simone quis dizer. Li duas vezes e na segunda recorri a algumas leituras complementares. A primeira é uma resenha de  Celeste Chaves Barra, Denise Raissa Lobato Chaves e Raissa Cruz dos Santos.

Para este capítulo, Simone faz uma análise do pensamento inicialmente do sexólogo Marañon ao reduzir o orgasmo feminino como sendo uma característica viril e afirma que a mulher está no meio do caminho para o impulso sexual, e este possui uma "direção única". Em seguida ao comentar as contribuições de Freud e Adler, Simone chega a conclusão da falta de estudos aprofundados sobre a sexualidade da mulher. Mesmo quando o há, existem em comparação de inferioridade ao homem. Novamente questionando a ideia da mulher ser o Outro, a premissa inicial do livro. Após as leituras extras, compreendi que neste capítulo Simone crítica que o falo dê uma superioridade ao homem pelo argumento biológico puramente, mas sim 

"retoma a construção do falo e afirma que a superioridade e autoridade masculina, no viés psicanalítico, não é conferido ao falo em si, mas ao construto simbólico em volta daquele que o possui: o homem. Sendo assim, a autora argumenta que há toda uma construção simbólica acerca do homem e seu falo, para além de um olhar apenas sexual:" (fonte)

Citando Simone

se corpo e sexualidade s„o expressões concretas da existência, é também a partir desta que se pode descobrir-lhes as significações: sem essa perspectiva, a psicanálise toma, por verdadeiros, fatos inexplicados. Dizem-nos, por exemplo, que a menina tem vergonha de urinar de cócoras com as nádegas ‡ mostra: mas que é a vergonha? Assim também, antes de indagar se o macho se orgulha de ter um pênis ou se seu orgulho se exprime pelo pênis, cumpre saber o que é o orgulho e como a pretensão do sujeito pode encarnar-se em bum objeto. N„o se deve encarar a sexualidade como um dado irredutível; h·, no existente, uma "procura do ser" mais original; a sexualidade é apenas um de seus aspectos.

Todo simbolismo é construído por um contexto social, Simone crítica que a psicanálise ignore isso sem admiti-lo na sua construção teórica:

O simbolismo não caiu do céu nem jorrou das profundezas subterrâneas: foi elaborado, como uma linguagem, pela realidade humana que é mitsein ao mesmo tempo que separação, e isso explica que a invenção singular nele tenha seu lugar. Praticamente o método psicanalítico é forçado a admiti-lo, autorize-o ou não a doutrina (pg 76)
só no seio da situação apreendida em sua totalidade que o privilégio anatômico cria um verdadeiro privilégio humano. A psicanálise só conseguiria encontrar sua verdade no contexto histórico. (pg. 78)

Mas uma vida é uma relação com o mundo; é escolhendo-se através do mundo que o indivíduo se define; é para o mundo que nos devemos voltar a fim de responder às questões que nos preocupam. Em particular, a psicanálise malogra em explicar por que a mulher é o Outro, pois o próprio Freud admite. (pg. 78)

O que Simone questiona neste capítulo, é que assim como os dados biológicos, no capítulo anterior, a psicanálise também falha é explicar porque se constituiu na sociedade que a mulher seja O Outro. Além disso aponta para a "pobreza das descrições relativas à libido feminina"

O esquema descritivo propõe-se como uma lei, e seguramente uma psicologia mecanicista n„o poderia aceitar a não de invenção moral: pode, quando muito, explicar o menos, nunca o mais. A rigor, admite malogros, nunca criações. Se um sujeito n„o reproduz em sua totalidade a evolução considerada normal, diremos que a evolução se deteve no caminho, interpretar-se-· essa parada como uma falha, uma negação, nunca como uma decis„o positiva (pg. 79)

Assim, os psicanalistas acreditam que

Quando uma menina sobe a uma ·árvore é, a seu ver, para igualar-se aos meninos: n„o imagina que subir numa ·árvore lhe agrade; [...]Pode-se observar certo paralelismo entre nossas descrições e as dos psicanalistas. … porque do ponto de vista dos homens ó e é o que adotam os psicanalistas de ambos os sexos ó consideram-se femininas as condutas de alienação, e viris aquelas em que o sujeito afirma sua transcendência. Um historiador da mulher, Donaldson, observava que as definições: "O homem é um ser humano macho, a mulher È um ser humano fêmeo", foram assimetricamente mutiladas; é particularmente entre os psicanalistas que o homem é definido como ser humano e a mulher como fêmea: todas as vezes que ela se conduz como ser humano, afirma-se que ela imita o macho.




E é por meio dessas análises, Simone propõe uma estudo sobre a mulher em sua situação total


28.8.18

[estudos] A Poética - Aristóteles



Colocando me prática o distanciamento do Instagram e foco na minhas prioridades, vou começar por terminar livros teóricos encalhados. O primeiro e mais recente é A Poética de Aristóteles, recomendado pela minha coordenadora da bolsa. Vou passar a semana lendo este livro e estabeleci cinco partes por dia (ele possui 26).

Estou fazendo resumo das leituras, mas meus resumos são mais por tópicos ou esquemas pra tentar entender os conceitos.

Vou atualizando essa postagem conforme os dias forem passando. Estou colocando 1h por dia dedicada a essa leitura.

Dia 1: terça-feira 23:30 às 00:30 (cap. I ao V)

Dia 2: quarta-feira 23:45 às 00:45 (cap. VI ao XI)


2.6.18

[Fichamento] O Segundo Sexo Vol 1. - 1/Os dados da biologia

Em alguns momentos Simone, utiliza termos biológicos e conceitos da natureza para exemplificar a relação macho e fêmea entre outros seres vivos, comparando aos seres humanos. Assim, muitos momentos podem ser cansativos e complicados de acompanhar, mas muito interessante e fundamental que de Beauvoir tenha feito todo o percuso biológico, histórico e social para provar a falta de evidências que justifiqum a inferioridade da mulher seja qual for o âmbito científico.



Na boca do homem o epíteto “fêmea” soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dele dizem: “É um macho!” O termo “fêmea” é pejorativo não porque enraíza a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo. pg. 31

Mas se quisermos deixar de pensar por lugares-comuns duas perguntas logo se impõem: Que representa a fêmea no reino animal? E que espécie singular de fêmea se realiza na mulher? pg. 31


A presença no mundo implica rigorosamente a posição de um corpo que seja a um tempo uma coisa do mundo e um ponto de vista sobre esse mundo: mas não se exige que esse corpo possua tal
ou qual estrutura particular. pg. 35

Com o advento do patriarcado, o macho reivindica acremente sua posteridade; ainda se é forçado a concordar em atribuir um papel à mulher na procriação, mas admite-se que ela não faz senão carregar e alimentar a semente viva: o pai é o único criador. Aristóteles imagina que o feto é produzido pelo encontro do esperma com o mênstruo; nessa simbiose a mulher fornece apenas uma matéria passiva, sendo o princípio masculino força, atividade, movimento, vida. É essa também a doutrina de Hipócrates, que reconhece duas espécies de sêmens: um fraco ou feminino e outro forte, masculino. A teoria aristotélica perpetuou-se através de toda a Idade Média e até à época moderna. pg 35/36

Hegel estima que os dois sexos devem ser diferentes: um será ativo e o outro, passivo, e naturalmente a passividade caberá à fêmea. “O homem é assim, em consequência dessa diferenciação, o princípio ativo, enquanto a mulher é o princípio passivo porque permanece dentro da sua unidade não desenvolvida.”14 E mesmo depois que se reconheceu o óvulo como um princípio ativo, os homens ainda tentaram opor sua inércia à agilidade do espermatozoide. pg 37

Há, portanto, dois preconceitos muito comuns que — pelo menos nesse nível biológico fundamental — se evidenciam falsos: o primeiro é o da passividade da fêmea; a faísca viva não se acha encerrada em nenhum dos dois gametas: desprende-se do encontro deles. O núcleo do óvulo é um princípio vital exatamente simétrico ao do espermatozoide. O segundo preconceito contradiz o primeiro, o que não impede que muitas vezes coexistam: o de que a permanência da espécie é assegurada pela fêmea, tendo o princípio masculino uma existência explosiva e fugaz. Na realidade, o embrião perpetua o germe do pai tanto quanto o da mãe e os retransmite juntos aos descendentes, ora sob a forma masculina, ora sob a feminina. pg. 39


A partir dessa observação biológica, Simon traça paralelos dos mitos que rondam a condição da mulher, fêmea, socialmente. 

Mas é principalmente entre os pássaros e os mamíferos que o macho se impõe à fêmea; frequentemente ela o aceita com indiferença e mesmo lhe resiste. Por provocante ou tolerante que seja, é o macho, de qualquer modo, quem possui: ela é possuída; ele pega, ela é pegada e a palavra tem, por vezes, um sentido muito preciso: ou porque tem órgãos adaptados, ou porque é o mais forte, o macho segura-a, imobiliza-a; efetua ativamente os movimentos do coito. Entre muitos insetos, entre os pássaros e os mamíferos, ele a penetra. Em virtude disso, a fêmea apresenta-se com uma interioridade violentada. pg. 49 

Inicialmente violentada, é a fêmea alienada em seguida; ela carrega o feto em seu ventre até um estado de maturação variável segundo as espécies: a cobaia nasce quase adulta, o cão muito perto do estado fetal. Habitada por um outro que se nutre de sua substância, a fêmea é, durante todo o tempo da gestação, concomitantemente ela mesma e outra; após o parto, ela alimenta o recémnascido com o leite de suas tetas. A tal ponto que não se sabe quando ele pode se considerar autônomo: no momento da fecundação, do nascimento ou do desmame? [...] Só que essa individualidade não é reivindicada: a fêmea abdica em prol da espécie que reclama essa abdicação. - pg.50

a individualidade da fêmea é combatida pelo interesse da espécie. pg. 52

É muito importante a ênfase biológica que Simone dá nesse capítulo, ao exemplicar a diferença do corpo do homem, como macho e do corpo da mulher, como fêmea e como o desenvolvimento de é atravessado por conceitos sociais. Assim. não há como analisar o SER mulher, partindo de uma noção puramente subjetiva. Estar num corpo de uma mulher ou de um homem perpassa questões sociais. Reafirma assim que as questões que perpassam o corpo da mulher são ainda importantes sim para entendermos as opressões qu passamos. Questões relacionadas a menstruação, gravidez, e puberdade. Como o corpo da menina se desenvolve socialmente comparado ao do menino. Tudo isso não pode ser analisado como meramente subjetiva


"A história da mulher é muito mais complexa. Desde a vida embrionária, a provisão de oócitos já se acha constituída; o ovário contém cerca de cinquenta mil óvulos encerrados cada qual em um folículo, sendo que mais ou menos quatrocentos chegam à maturação. Desde o nascimento, a espécie toma posse dela e tenta se afirmar; a mulher, vindo ao mundo, atravessa uma espécie de primeira puberdade: os oócitos crescem subitamente, depois o ovário reduz-se a um quinto mais ou menos. Pode-se dizer que uma pausa é concedida à criança; enquanto seu organismo se desenvolve, o sistema genital permanece mais ou menos estacionário: certos folículos incham, mas sem atingir a maturidade. O crescimento da menina é análogo ao do menino; com a mesma idade ela chega a ser um pouco mais alta e mais pesada do que ele. Mas, no momento da puberdade, a espécie reafirma seus direitos." pg; 54

"A mulher conhece uma alienação mais profunda quando o ovo fecundado desce ao útero e aí se desenvolve. Sem dúvida, a gestação é um fenômeno normal que, em se produzindo em condições normais de saúde e nutrição, não é nocivo à mãe; estabelece-se mesmo, entre ela e o feto, certas interações que lhe são favoráveis. Entretanto, contrariamente a uma teoria otimista cuja utilidade social é demasiado evidente, a gestação é um trabalho cansativo que não traz à mulher nenhum benefício individual." pg 57 (Coloco-me aqui num ponto de fisiológico. É evidente que maternidade pode ser muito útil também ser um desastre)

o corpo nem sempre satisfaz a espécie e o indivíduo ao mesmo tempo pg. 58

Esses dados biológicos são de extrema importância: desempenham na história da mulher um papel de primeiro plano, são um elemento essencial de sua situação. Em todas as nossas descrições ulteriores, teremos que nos referir a eles. Pois, sendo o corpo o instrumento de nosso domínio do mundo, este se apresenta de modo inteiramente diferente segundo seja apreendido de uma maneira ou de outra. Eis por que os estudamos tão demoradamente; são chaves que permitem compreender a mulher. Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada. pg. 60

Sobre as questões que fazem da mulher um ser mais frágil fisicamente, ou como muito já se afirmou contra nós, que há "a falta de controle e a fragilidade de que falamos:". Simone afirma: 

Em verdade, esses fatos não poderiam ser negados, mas não têm sentido em si.  Desde que aceitamos uma perspectiva humana, definindo o corpo a partir da existência, a biologia torna-se uma ciência abstrata; no momento em que o dado fisiológico (inferioridade muscular) assume uma significação, esta surge desde logo como dependente de todo um contexto; a “fraqueza” só se revela como tal à luz dos fins que o homem se propõe, dos instrumentos de que dispõe, das leis que se impõe. 
[...] é preciso que haja referências existenciais, econômicas e morais para que a noção de fraqueza possa ser concretamente definida. pg 63

Por exemplo, quanto a função geradora:

relação da maternidade com a vida individual é naturalmente regulada nos animais pelo ciclo do cio e das estações: ela é indefinida na mulher; só a sociedade pode decidir dela. Segundo essa sociedade exija maior ou menor número de nascimentos, segundo as condições higiênicas em que se desenvolvam a gravidez e o parto, a escravização da mulher à espécie faz-se mais ou menos estreita. Assim, se podemos dizer que entre os animais superiores a existência individual se afirma mais imperiosamente no macho do que na fêmea, na humanidade as “possibilidades” individuais dependem da situação econômica e social. pg 63

Não é enquanto corpo, é enquanto corpos submetidos a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza: é em nome de certos valores que ele se valoriza. pg 64

É, portanto, à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia. A sujeição da mulher à espécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de extrema importância; o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste mundo. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma resposta à pergunta que nos preocupa: por que a mulher é o Outro? Trata-se de saber como a natureza foi nela revista através da história; trata-se de saber o que a humanidade fez da fêmea humana. pg 65



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