5.5.13

Livros de Abril - I

"Amor nos Tempos de Fúria"  - Lawrence Ferlinghetti



Lawrence Ferlinghetti não gosta de ser denominado o último beat, em uma entrevista o fundador da City Lights, poeta e amigo dos famosos beats como Kerouac, Ginsberg e Burroughs explica que sua escrita é diferente de seus companheiros e o que os aproximava era o fato de ele ter ajudado sendo editor deles. Realmente ao ler a prosa de Ferlinghetti é perceptível certa diferente do jeito mais livre de escrever característico da beat generation, principalmente em Amor nos Tempos de Fúria. Apesar de uma pequena diferença de estilo me senti levada pelo romance, tanto que li em uma velocidade não costumeira para mim, gosto de demorar nas leituras e ir sentido tudo aos poucos, mas Lawrence me deu uma "sede pela página seguinte". 

O amor entre uma pintora de espírito livre e um burguês idealista que se diz anarquista tem como pano de fundo a época de 68 em Paris, a revolução, as ideologias, os conflitos. Há extensas passagens em que os dois conversam e discutem sobre o que está acontecendo ao redor deles, todas as dúvidas, a inquietação e as divergências políticas em alta na balbúrdia da Paris de 68. Lançado em 1988, "Amor nos tempos de fúria" é um excelente documento sobre esse período e uma instigante leitura sobre um romance nada convencional.




"[...] e ela sem dúvida estava fascinada por ele, mas mantinha certa cautela porque havia algo nele, uma expressão no olhar, uma curiosa circunspecção ou distância, algo insondável e introvertido. De modo que ela não se aproximava muito quando lhe ocorria vê-lo"

"[...] e os dois se sentaram juntos no terraço do Café Mabillon ali perto e pediram café e beberam e ficaram conversando sobre qualquer coisa, como se estivessem juntos desde sempre. Ela sentiu uma afinidade instantânea com ele, quase como se o conhecesse há tempo, em outra vida em outro país [...]"

"No entanto, Julian Mendes disse, foi Albert Camus quem realmente teve um significado importante para ele. Albert Camus quem Julian admirava acima de tudo, em especial seu L'homme Revolté.
- Sim - disse Julian -, acho que eu não seria o que eu sou sem esse livro!"



A Hora da Estrela - Clarice Lispector

as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela




"É a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade"

"Porque há o direito ao grito
Então eu grito"

"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?"

"E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisas de doido, caso de loucura. Existir não é lógico."

"Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela é doce e obediente."

"Por Deus! Eu me dou melhor com bichos do que com gente."

"Já que sou, o jeito é ser"

"Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades"

"O cotidiano me aniquila"

"Macabéia nunca tinha tido coragem de ter esperança."

Um tal Lucas - Júlio Cortázar

Esse é o meu primeiro contado com Cortázar e não teve como escapar não me apaixonar. O realismo fantástico do argentino nos leva a realmente transcender o cotidiano comum, somos apresentados a histórias repletas de absurdo, mas descritas como se fossem corriqueiras, e quando chegamos ao final dos contos já nos vemos dentro de toda aquela névoa surreal acreditando ser a realidade mais plausível de se acontecer. O talento de Cortázar vai em mostrar metaforicamente que esse casos abusurdos estão mais próximos da nossa vida do que pensamos. 

Com muita irônica e bom humor os contos cortazarianos são levados por vezes como se fossem matérias jornalísticas, outras como artigos científicos justamente para causa o tom sarcástico falando com seriedade formal que a sociedade usa para disfarçar uma comicidade trágica.

Amor 77


E depois de fazer tudo o que fizeram, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são.

...

Lucas e suas comunicações

Não se trata de escrever para os outros e sim para si mesmo, mas a gente mesmo tem que ser também dos outros; [...]

...

Lucas e seus solilóquios

[...] mas você, você não me dá mais que este vazio de ficar em casa, de saber que tudo se ressuma hostilidade [...]





Aqui um vídeo do próprio Cortázar lendo um trecho do livro







10.3.13

Satori.



"E sou deixado ali no banco do bar importunando todo mundo com minha solidão desgraçada que passa despercebida na noite movimentada e atordoante, no bater da caixa registradora, na balbúrdia da lavagem de copos. Quero dizer a eles que não queremos todos ser formigas contribuindo para o organismo social, mas individualistas contados um por um, mas não, tente dizer isso aos que entram-e-saem com pressa dentro e fora da noite agitada do mundo enquanto o mundo gira em um só eixo. A tempestade secreta se tornou um temporal público." 




"... adultos cretinos que têm medo de ler sobre si mesmos em um livro assim como teriam medo de olhar no espelho quando estiverem doentes ou feridos ou de ressaca ou insanos"
                                              (Satori em Paris)

25.12.12

Crazy Cock - outros trechos



- Você diz que ama ambos? - interrompeu ele a certa altura, quebrando o longo silêncio que vinha mantendo.

- Sim - respondeu Hildred. - Eu os amo, os dois, embora meu amor por você seja diferente do amor que tenho por Vanya.

[...]

- Escute - disse ela - , você acha que eu poderia ficar em seus braços, entregar-me a você como me entrego, se...

- Se o quê?

- Oh, tudo isso é tão estúpido! Você torna as coisas complicadas, feias. Toma, sim, senhor! Você vê tudo a sua maneira, essa maneira tacanha, masculina. Você faz de tudo uma questão sexual, e não é nada disso... é algo raro e belo.
O pensamento a empolgo, levou-a longe.

- Imaginar - disse - que você possa ter essas idéias horríveis a meu respeito, quando eu só tenho amor por você!... amor e gratidão... pois devo tudo a você. Eu não era nada, só uma criança tola, e você me transformou em alguma coisa. Você é quase um deus pra mim. Será que não sabia disso? Não acredita em mim?




17.12.12

Em busca do Satori

esse é o ponto enquanto a maioria das pessoas se encolhem nesse medo do que pode encontrar quando chegar ao fim da viagem de si mesmo - eu não tenho. vivo em busca de cavar mais e mais o poço vazio que sou na esperança de encontrar algo e só escuto o que reverbera - sem nenhum entendimento


nunca tive medo de encarar o espelho e ver minhas feridas nunca tive medo de abraçar tua alma estranha e saber

a dor que causaria


porque eu sempre preferi pular no abismo sem enxergar o chão sempre preferi descer de olhos abertos em todas as montanhas russas da insanidade 

e terminar sem fôlego


mas afinal quem iria se dizer lúcido quando se entrega completamente e imediatamente a todos os penhascos da vida?




16.12.12

Henry Miller - Crazy Cock

"... Ela sentiu que em tudo, sublime ou ignóbil,se escondia uma força turbulenta e vital, era apenas um pálido reflexo - Eu quero viver! - murmurou desvairada - Quero viver!"

"Era impossível para ela sequer formular, mesmo para si mesma, o significado daquilo que a inundava e que, naquele momento, iluminava para ela as zonas encobertas de seu ser"

13.12.12

Carta de Virginia Woolf para Leonard Woolf

A carta mais triste de todos os tempos, talvez? Mas com certeza a carta que mais me toca, que me faz em pedaços toda vez que leio. 




Dearest, I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier ’til this terrible disease came. I can’t fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that — everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer. I don’t think two people could have been happier than we have been. V.


15.10.12

História do Olho, Georges Bataille



Livro escrito em 1928, fruto de uma espécie de "descarrêgo" psicológico de devassidões de Georges Bataille. Incentivado por seu psicanalista, Bataille começou a escrever 'A história do Olho' na intenção de expurgar os demônios e também os anjos de seu espírito devasso, nos proporcionando um passeio erótico sem igual, inimaginável, literalmente INCRÍVEL e o mais importante (o que eu espero que seja): libertador. Libertino e Libertador, aqui, os dois adjetivos se confundem, andam juntos, entrelaçam-se sem vergonha. Vergonha é na verdade uma palavra inexistente nessa journey. Acontece que Bataille não tinha vergonha de não ter vergonha, a libertinagem é liberada e acontece de forma muito natural e eu fico a pensar se não deveria ser realmente assim.  Pode ocorrer de acharmos que é extremismo em certos momentos da aventura de Simone e seu companheiro sem nome. Mas tudo acontece em nome do pau, da boceta, de santo prazer e nada mais. É um caso delicado, meu caro, mas é isso que uma obra de arte deve "servir" para: fazer pensar, discutir, mudar; mesmo depois de décadas. E certeza que A História do Olho vai ainda dar muito o que pensar mesmo depois de milênios. E pra quem acha que o livro é uma ou é de "putaria" e é só isso que você vai encontrar, engano seu caro Wilson. 


Trechos:

"Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. [...] Em geral apreciam os "prazeres da carne", na condição de que sejam insossos. 
Mas, desde então, não havia dúvidas: eu não gostava daquilo que se chama "os prazeres da carne", justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por "sujo". Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado..."
(Os olhos abertos da morta)

"Cortei a corda, ela estava bem morta. Nós a colocamos em cima do tapete. Simone me viu de pau duro e me bateu uma punheta; deitamos no chão e eu a fodi ao lado do cadáver. Simone era virgem e aquilo nos machucou, mas estávamos contentes justamente por nos machucar" (Os olhos abertos da morta)

"[...] Simone realmente se masturbava, colada contra as grades, o corpo tenso, as coxas afastadas, os dedos remexendo os pentelhos. Consegui tocá-la, minha mão alcançou o buraco entre as nádegas. Nesse momento, ouvi-a claramente pronunciar:
- Padre, ainda não disse o pior.
Seguiu-se um silêncio.
- O pior, padre, é que esto me masturbando enquanto falo com o senhor.
Mais alguns segundo, agora de cochichos. Finalmente, quase em voz alta:
- Se não acredita posso lhe mostrar.
E Simone de levantou, abrindo-se diante do olho da guarita, masturbando-se, em êxtase, com a mão segura e rápida.
- E então, padreco - berrou Simone golpeando violentamente o armário - ,o que é que você está fazendo no seu barraco? Batendo punheta também? [...]"


E vai aqui o link pra baixar outro livro do Bataille (que eu ainda vou ler): O Erotismo

144 anos de Virginia Woolf

Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...