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18.5.21

Todos os meu humores - Dia Nobre



Em Todos os meus humores, Dia Nobre fez eu me reconectar com passagens internas em mim, a poesia se transforma no material utilizado por exploradores da alma. 

Ao lê-la, pecorri desertos, alpes, zonas abissais e florestas. Em cada paisagem, ou em cada um de seus humores, reconheci fragmentos meus e me senti abraçada, menos sozinha e mais viva. 

Às mulheres, os adjetivos desequilibrada, histérica, raivosa, frígida são constantes ao longo da História e da Literatura. E como historiadora, Dia Nobre conseguiu unir em sua poesia a memória de nossas antepessadas queimadas, julgadas, apedrejadas e levantar uma fogueira não para morrermos, mas para renascermos, com o fogo de nosso sexo. 

Em Todos os meus humores não escondemos nossas camadas, ossos, pele, aqui é tudo exposto, goste ou não. E quando Dia afirma que "é anônima", ela diz que é todas nós. 

Os poemas também falam muito sobre o amor, o amor a outras mulheres, envoltos em desejo e decepções com intensidade e leveza ao mesmo tempo. 

No livro, ela mistura poesia e prosa poética, alguns poemas são mais breves e outros mais longos. Há na maioria deles um tom bem cotidiano e íntimo que não nega a influência de Ana Cristina Cesar e eu amo! 

Ao terminar o livro senti que não escrevo, enlouqueço ou leio sozinha, porque "não me importam as pedras / as transcendo na ponta de minha caneta". 



31.3.21

[Resenha] Ninguém vai lembrar de mim - Gabriela Soutello

É um livro difícil de pegar nos braços, são tantos sentimentos, imagens e sensações que me perfuram que gostaria de conseguir reter todas as palavras aqui na retina, para nunca esquecer.


Mas sei que esquecerei, essa é a tristeza da leitura. Esquecemos algum dia todas as frases que tanto nos maravilharam.

Ficamos apenas com o que cola no corpo. Por isso ler, não é algo só intelectual, é sensorial. E o livro de Gabriela Soutello mexe mesmo com nossos sentidos.

O livro é composto por prosas poéticas. Não existe uma narrativa linear, também não são contos da maneira convencional que entendemos o que é um conto.

Aqui temos fragmentos do percurso investigativo de uma mulher com sua solidão, amores, sexualidade, divagações sobre o futuro e memórias. Não em busca de nada específico, apenas deixando-se escorrer em vermelho.

Cada texto, mesmo que não totalmente compreensível em uma primeira lida, parecia narrar uma parte minha. Isso porque Gabriela consegue revirar por dentro detalhes íntimos das relações humanas.

Não conheço Gabriela, não sei quem ela é, o que é verdade ou não e não importa. O que temos é um material de entrega que nos pede mutuamente permissão para desbravarmos-nos.

11.3.21

A mulher mais amada do mundo - Vanessa Passos

Alguns livros nos marcam pelos longos meses dedicados a eles como uma travessia persistente. 

Outros pela velocidade com a qual atingem nosso íntimo como uma farpa, um pequeno objeto perfurando nosso corpo e latejando por alguns dias. 

Nesse segundo grupo está o livro A mulher mais amada do mundode Vanessa Passos. 

São 13 contos que possuem no máxino duas páginas cada, todos com mulheres como protagonistas, tazendo histórias sobre solidão, luto, descobertas interiores.

O grande foco são as personagens com suas contradições e veredas, que me fizeram refletir sobre as mulheres que habitam em mim - pois ao longo da leitura me identifiquei com várias. 

Em nossa sociedade, a união entre mulheres foi destruída como projeto político, como encontramos no livro Calibã e a Bruxa de Silvia Federici. Sentimentos nocivos de competitividade e rebaixamento entre mulheres são incentivados na mídia e nas representações artísticas. 

Na contramão de tudo isso, o livro de Vanessa Passos surge desse fogo usado para queimar nossas antepassadas, cada história pega na sua mão e te convida a também contar as suas. São contos-gritos de liberdade contra esse apagamento.

Em um dos contos, quando a neta de Alice decide contar a história da avó, não é só sobre ela que a personagem se refere, mas da vida de milhares de mulheres que não foram ouvidas, que não acham que suas vidas são banais demais para a literatura, e aqui, eu sinto que cada história que temos dentro de nós importa, muito.

Os contos me fazem observar também as mulheres ao meu lado e as que já passaram na minha vida; me faz amar mulheres de modo geral, como um coletivo, me faz querer que cada uma se sinta: a mais amada do mundo. 


10.3.21

Todos os nós, Maria Luiza Maia



Todos os nós é o segundo livro da escritora baiana Maria Luiza Maia. O título, de início, me chamou atenção pela abertura de dualidade em que remete a nós (angústias) internos, as "falas entupidas" como diz Ana Crisitina Cesar, ou "nós" como uma multidão contida em si. E sem chegar a nenhuma conclusão, sinto ambos.

Li a poesia de Maria Luiza como uma conversa infinita no espelho, como se eu ficasse tentando entender o que é meu corpo no mundo.

Aliás, essa investigação do corpo é um tema transversal durante o passeio nessa leitura.

Ao longo do livro há uma sequência de poemas intitulados "Para Clara", que não são seguidos um do outro, em que Maria constrói a imagem marcante de um corpo que tenta se costurar.


Achei essa sequência o ponto alto do livro, principalmente por serem saltados, e me deu a sensação de atravessar vários sentimentos, mas sempre voltar para me perguntar como me costurar quando rasgada. Ao que Maria avisa: "não espere que alguém os emende".

Os poemas, assim, vasculham a estrutura desse corpo rompido, espatifado e também dialogam com o próprio fazer poético com ironia como quando conclui que "os poetas são mentirosos" e rebate possíveis críticas sobre escrever um poema que não tem rimas e palavras difíceis.

Todos nós é uma leitura que me faz enfrentar meus buracos, minha solidão, com poemas que ficam no ar durante um tempo "para que a pele se acostume com os pontos".

18.2.21

Um útero é do tamanho de um punho - Angélica Freitas



Esse é o segundo livro da gaúcha Angélica Freitas, publicado em 2012 e considerado um clássico da poesia contemporânea. 

Eu conhecia o livro há um tempo, e tinha lido alguns poemas soltos, mas faltava tomar a decisão de comprar o livro e ler do começo ao fim. Sem um motivo muito específico, a não ser um amigo que perguntou se eu conhecia e eu respondi a famosa frase "conheço, mas não li", resolvi comprar no final do ano passado. 

A poesia, para Angélia é uma investigação, os poemas não causa o sentimento que geralmente se procura quando lê-se poesia: identificação, emoção profunda. 

A conexão gerada entre o leitor e a poesia de Freitas é da ordem do humor, mesmo vinda a partir da opressão. Alguns poemas terminam com uma picada de agulha, mas nenhum deles é uma punhalada e isso não significa ser um livro menor. 

"Um útero" vai investigar várias questões da condição da mulher na sociedade, com muito sarcásmo e sagacidade.

Os versos seguem uma estrutura que busca enfileirar os padrões sufocantes do universo feminino. 

Essa repetição tanto marca a sonoridade como dá uma sensação também de cansaço no eu-lírico-mulher. Os poemas surgem em séries, como bonecas-russas, um a partir do outro. 

A poeta, assim, revela com ironia os modelos rídiculos os quais mulheres são ensinadas a existir para sermos "boas", "limpas", "sóbrias". 

No entanto, o livro não traz um tom taciturno de denúncia, e sim humorístico. Cansada de berrar e chorar, uma mulher gargalha, debocha, faz poesia e incomoda. 

Os poemas podem "enganar" e "brincar" com o leitor pela aparência de simplicidade, mas inclusive em entrevista, Angélica fala da importância da prática, do erro, do estudo, da leitura e do treino na escrita. Até para dar esse aspecto de ser à toa é preciso bastante lapidação.

Um útero pode ser do tamanho de um punho, ou de um poema, e um poema pode ser do tamanho da nossa imaginação. 

Um útero é do tamanho de um punho sugere no título encontrar esse lugar de força, de luta do punho cerrado como um símbolo masculino, para se transformar nesse órgão que sangra rindo e esmurrando o mundo ao mesmo tempo. 



31.1.21

Home Body (Meu corpo, minha casa) - Rupi Kaur

Rupi é uma escritora muito importante para o movimento mais recente de poesia de cunho feminista, por ter viralizado e chegado em muitras pessoas que inclusive não gostavam de poesia e mulheres que não se viam como feministas.

São poemas que falam de um lugar de dor, geralmente tratando de relacionamentos abusivos, abusos sexuais, sentimentos de baixa auto estima, mas ao mesmo tempo procuram construir uma rede de empatia e apoio para que mulheres consigam se inspirar e encontrar força em momentos de vulnerabilidade.

Outra caraterística da autora que têm muita influência em várias poetas contemporâneas é a construção do último verso do poema escrito em itálico e com um travessão. 

Na primeira parte do livro, chamado Mente, Rupi expressa com crueza os sentimentos de experiências traumáticas de abuso infantil e como isso leva à depressão, ansiedade e a sensação de deconexão com seu corpo. 

Por ter virado um fênomeno literário e ter inspirado muitas pessoas a escrevem sobre essas temas e até com o mesmo estilo, eu confesso que achei previsível toda a temática de Meu Corpo Minha Casa assim como a estética da autora. 


Por exemplo, o poema:



Você põe tudo a perder

quando não ama primeiro você

- e ganha tudo quando se ama



Me dá a sensação de já ter visto essa mesma frase muitas vezes. 

Não desvalorizo a pertinência de ainda trazermos esses temas para a poesia, acredito que sim é muito significativo encontrar uma voz que expresse dores que muitas vezes não temos coragem de falar. Mas por vezes eu achava desinteressante a maneira como isso era exposto, no entanto entendo a importância de também trazer uma escrita mais "direta" principalmente por Rupi ter aproximado tantas pessoas da poesia.

144 anos de Virginia Woolf

Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...