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7.11.20

Desafio #umafagulhapordia - dia 2: um poema revisitando uma memória infantil

 o mundo do beleléu

 

foi em um livro que li

não lembro a idade que tinha

quando fui apresentada à explicação de que há um espaço,

um espaço de verdade

abrigando em seu cosmo tudo que um dia perdi

o problema era

e lugar jamais poderia ser encontrado

eu apenas podia saber que as coisas estavam em algum lugar

estavam bem.

 

Tive a oportunidade de sentir desde cedo o gosto

com um pouco menos de dor

do que partir significa.

 

A primeira vez foi aos quatro,

sou agora novamente

a mesma menina à porta

ouvindo gritos

de uma memória que nem sei ser real

ou apenas a imagem do que se despedaçou.

 

Perder é uma arte,

morrer também.

E eu igualmente,

faço isso muito bem.

2.11.20

Desafio #umafagulha por dia - dia 1 - um poema com nome de cidade: Fortaleza

Fortaleza

 

pensei ter sido muito louco

transar em cima da pia do banheiro

ou na janela de um hotel

ou a masturbação às escondidas no carro

entre outras cenas protagonizadas

por mim e minha falta de autoestima

dignas de folhetins eróticos de banca de revista

 

cenas seguidas, é claro

de toda a humilhação possível

para uma garota que aprendeu desde cedo a confundir

aceitação alheia com automutilação

 

pensei ter feito loucuras em muitas cidades

mas a maior delas foi ficar aqui

explodindo fronteiras inexploradas dentro de mim.


//


Em Novembro, estou participando do desafio Uma Fagulha por dia, proposto pela Claudine do perfil https://www.instagram.com/claudinemesmo/ que consiste em fazer um poema por dia com temas que ela sugeriu no perfil dela. Não garanto que todo dia irei consegui, mas vai valer a tentativa.


1.11.20

Faxina

é silêncio no domingo à noite

juntamos os restos que não jantamos

do que não nos coube no estômago

para guardar na geladeira e almoçar no dia seguinte

juntamos todas as incompletudes semanais

no cansaço que pousa em cada vértebra

de minha coluna torta.

é domingo à noite e faz silêncio

prefiro deixar a casa limpa agora

imagino que acordarei amanhã

como se a casa fosse

um palco

pronto para que eu dance novamente os mesmos passos

ou invente novas coreografias domésticas

ir à cozinha às 7:00 e passar o café

me alongar na sala

depois me encaminhar para a mesa no escritório,

ou talvez antes arrumar a cama.

ou quem sabe hoje mudar aquele móvel de lugar.

é domingo à noite e faz silêncio

a palavra mais simples foi dita

na quietude do inesperado: desculpa

- desculpa também.

prefiro deixar a casa limpa

agora que chorei mágoas secretas enterradas

no quartinho dos fundos do apartamento,

aquele em que guardamos coisas que não vamos usar

desnecessárias, gigantes demais para ficarem à vista

mas apenas

continuam lá.


4.2.16

Poemas de Wislawa Szymborska (Parte II)

FILHOS DA ÉPOCA

Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz rem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.
Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.

Qual questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável..
Ou mesa de conferência cuja forma
se discutia por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.

Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.

Harry Ally


A Vida na Hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz

Jack Davison


ENTRE MUITOS

Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos
Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.
No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.
Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.
Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.
Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.
Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.
Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.
E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?
Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?
A sorte até agora
me tem sido favorável.
Poderia não me ser dada
a lembrança dos bons momentos.
Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.
Poderia ser eu mesma – mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

Gottfried Helnwein


OCASO DO SÉCULO

Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX.
Agora já não tem mais jeito,
os anos estão contados,
os passos vacilantes,
a respiração curta.

Coisas demais aconteceram,
que não eram para acontecer,
e o que era para ter sido
não foi.

Era para se chegar à primavera
e à felicidade, entre outras coisas.

Era para o medo deixar os vales e as montanhas.
Era  para a verdade atingir o objetivo
mais depressa que a mentira.

Era para já não mais ocorrerem
algumas desgraças:
a guerra por exemplo,
e a fome e assim por diante.

Era para ter sido levada sério
a fraqueza dos indefesos,
a confiança e similares.

Quem quis se alegrar com o mundo
depara com uma tarefa
de execução impossível.

A burrice não é cômica.
A sabedoria não é alegre.
A esperança
já não é aquela bela jovem
et cetera, infelizmente.

Era para Deus finalmente crer no homem
bom e forte
mas bom e forte
são ainda duas pessoas.

Como viver - me perguntou alguém numa carta,
a quem eu pretendia fazer
a mesma pergunta.

De novo e como sempre,
como se vê acima,
não há perguntas mais urgentes
do que as perguntas ingênuas

Nicholas O’Leary

17.8.14

Starvation

Eu vejo e não sei mais dizer
Eu sinto e não sei chorar

O que me trouxe
aqui, em garras e sangue nas mãos

Engulo com a ferocidade dos lobos
Faminta

Vou mergulhar no mar
reviver, revigorar

Eu abriguei a noite
em meus seios nus

Quero que meu corpo vire sal
Vou me desintregar em areias

Eu sinto as estrelas brilhando em minhas mãos
queimando iluminuras do futuro longuiquo

o azul-escuro habita minha solidão
e voa





16.7.14

Hilda Hilst - Poemas Malditos, Gozosos e Devotos

IV

[...]
Me deste vida e morte
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da Vida
















I 
[...]
Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
[...]







V 

Para um Deus, que singular prazer
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve nada: o homem.
Equação sinistra
Tentando parecença contigo,. Executor.

O Senhor do meu canto, dizem?  Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.

Dorme. Para que o poema aconteça.




XX
Move-te. Desperta.
Há homens à tua procura.
Há uma mulher, que sou eu.
A Terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta.

Sou muito pálida
Porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
Teus indícios.

Move-te. Tua aliança com os homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muitos de nós agonizam.
A Terra toda. Há de ser quase
Brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.

Não te demores.
Eu tenho nome: Poeira.

Move-te se te queres vivo.








144 anos de Virginia Woolf

Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...