18.7.14

O artista inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e difícil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.



16.7.14

Hilda Hilst - Poemas Malditos, Gozosos e Devotos

IV

[...]
Me deste vida e morte
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da Vida
















I 
[...]
Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
[...]







V 

Para um Deus, que singular prazer
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve nada: o homem.
Equação sinistra
Tentando parecença contigo,. Executor.

O Senhor do meu canto, dizem?  Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.

Dorme. Para que o poema aconteça.




XX
Move-te. Desperta.
Há homens à tua procura.
Há uma mulher, que sou eu.
A Terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta.

Sou muito pálida
Porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
Teus indícios.

Move-te. Tua aliança com os homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muitos de nós agonizam.
A Terra toda. Há de ser quase
Brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.

Não te demores.
Eu tenho nome: Poeira.

Move-te se te queres vivo.








29.6.14

Lady Lazarus

These are my hands
My knees
I may be skin and bone,
(sylvia plath)




The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.


O poema inteiro traduzido (retirado do site)

Eu o fiz de novo
Um ano em cada dez
Eu agüento

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilhante tal qual um abajur nazista
Meu pé direito

Um peso de papel,
Minha face, como um pano inexpressivo, delicado
Em linho judeu.

Tire o lenço
Ó, meu inimigo
Eu te assusto?

O nariz, o orifício ocular, a dentição plena?
O hálito azedo
Se esvairá em um dia.

Logo, logo a carne
Que a gruta do túmulo comeu se sentirá
Em casa sobre mim

E eu, uma mulher sorridente.
Eu, com apenas trinta anos.
E como o gato tenho nove vezes para morrer

Esta é o número três.
Que lixo
Aniquilar a cada década.

Que milhões de filamentos.
A multidão vulgar
Se acotovela para ver

Eles me desembrulharem mão e pé.
O grande strip tease.
Senhores, senhoras

Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso

Contudo, sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez que aconteceu eu tinha dez anos.
Foi um acidente.

Na segunda vez eu pretendi
Agüentar e nem sequer voltar.
Eu fechei em pedra

Como uma concha do mar.
Eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte como todo o resto.
Eu o faço excepcionalmente bem.

Eu o faço para saber o inferno.
Eu o faço para saber a real.
Eu suponho que se possa dizer que eu tenho um chamado.

É fácil fazê-lo em uma cela.
É fácil fazê-lo e permanecer estático.
É o teátrico

Retorno, em plena luz do dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, aos mesmos brutos
Entretidos gritando

“um milagre!”
Isso me estarrece.
Há um custo

Para ver as minhas cicatrizes, há um custo
Para sentir o meu coração
Ele realmente pulsa.

E há um custo, um grande custo
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue

Ou um pedaço do meu cabelo ou um pedaço da minha roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.

Eu sou sua composição
Eu sou seu pertence
O bebê de ouro puro

Que derrete a um grito estridente.
Eu me viro e ardo.
Não pense que eu subestimo sua grande preocupação.

Cinzas, cinzas
Você cutuca e revolve.
Carne, osso, não há nada lá.

Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado
Cuidado.

De dentro das cinzas
Eu desponto, meu cabelo em fogo
E devoro homens como ar.


23.6.14

Virginia Woolf - The Waves

O livro The Waves é o mais experimental de Virginia Woolf, seis personagens contam suas histórias desde a infância até a velhice em fluxos de pensamentos. As vidas de todas se entralaçam e se separam com o decorrer do tempo. O amor, a paixão, a solidão, o existencialismo, a morte, todos os temas já conhecidos de Woolf chegam ao leitor numa delicadeza sublime e avassaladora, vindos do âmago da alma humana, de pensamentos que as personagens não ousam confessar a ninguém, a não ser a si mesmos. E por isso, nós nos vemos assim, desnudos, descobertos em cada um dos seis.

Estou expondo trechos do que li até agora, e algumas partes traduzidas por mim, e outras retiradas do site (livro & café).





The wave paused, and then drew out again, sighing like a sleeper whose breath comes and goes unconsciously.

A onda pausou, e então foi-se novamente, suspirando como um adormecido que o respirar vem e vai inconscientemente.


Foto minha: Praia de Iracema



[...]



Now I will wrap my agony inside my pocket-handkerchief. It shall be screwed tight into a ball [...] I will take my anguish and lay it upon the roots under the beech trees. I will examine it and take it between my fingers. They will not find me. I shall eeat nuts and peer for eggs through the brambles and my hair will be matted and I shall sleep under hedges and drink water from ditches and die there (Susan)



Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada.[..] Vou levar minha angústia de depositá-la nas raízes sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos entre as sarças, meu cabelo ficará emaranhado e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e morrerei lá. (Livro & Café)

[...]



I need someone whose mind falls like a chopper on a block; to whom the pitch of absurdity is sublime, and a shoestring adorable. To whom can I expose the urgency of my own passion? (Neville)
Eu preciso de alguém que a mente encaixe como um martelo em um bloco, a quem seja sublime o nível de absurdo, e um par de caroços adorável. A quem eu posso expôr a urgência da minha própria paixão?


[...]



I do not want people, when I come in, to look up with admiration. I want to give, to be given, and solitude in which to unfold my possessions (Susan)

[...]


To whom shall I give all that now flows through me, from my warn, my porous body? I will gather my flowers and presente them - Oh! To whom? (Rhoda)
A quem  eu irei dar tudo que agora flui através de mim, do meu advetir, meu corpo poroso? Eu vou reunir as flores e presenteá-los - Oh! A quem?

[...]



He will forget me. He will leave my letters lying about among guns and dogs unanswered. I shall send him poems and he will perhaps reply with a picture postcard. But it is for that that I love him. I shall propose him meeting - under a clock, by some Cross; and shall wait, and he will not come. It is for that that I love him. Oblivious, almost entirely ignorant, he will pass from my life. And I shall pass, incredible as it seems, into other lives; this is only as escapade perhaps, a prelude only. [...] I will shade my eyes with a book, to hide one tear. (Neville)

Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas [...]. Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro – debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio. [...] Eu vou cobrir meus olhos com um livro, para esconder uma lágrima. (Livro & Café)

[...]

I do not know myself sometimes, or how to measure and name and count out the grains that make me what I am. (Bernard)
Por vezes, eu não me conheço, ou não sei como medir e nomear econtar os grãos que me fazem o que eu sou
[...]

I am Bernard; I am Byron; I am this, that and the other. they darken the air and enrich me, as of old, with their antics, their comments, and cloud the fine simplicity of my moment of emotion. For I am more selves than Neville thinks. We are not simple as our friends would have us to meet their needs. Yet love is simple.

Eu sou Bernard; Eu sou Byron; Eu sou esse, e aquele outro, eles escurecem o ar e me enriquecem, como se velho, com suas palhaçadas, seus comentários, e nublam a fina simplicidade do meu momento de emoção. Pois eu sou mais "eus" do que Neville pensa. Nós não somos simples como nossos amigos querem nos ter para atender suas necessidade. Ainda assim, o amor é simples

[...]






19.6.14

Aceito

Eu digo, que se soubesse, ainda assim
o cordão, partido
do chão, iria pro ar
o amor exige 
e sempre pra mim será
o melhor que existe

144 anos de Virginia Woolf

Há 144 anos nascia Adeline Virginia Stephen, depois conhecida simplesmente por Virginia Woolf (sobrenome de seu esposo Leonard Woolf) Durant...